Postado em: 6 março, 2026

Carolina Maria de Jesus: filha da escritora fala no Seta Entrevista

Filha de Carolina Maria de Jesus, Vera Eunice

Carolina Maria de Jesus: filha relembra história e impacto da escritora brasileira

O legado de Carolina Maria de Jesus permanece, ao longo de décadas, como um dos principais registros da desigualdade social no Brasil. Ao mesmo tempo, a obra da escritora é um marco da literatura brasileira. Mulher negra, escritora, mãe solo e moradora de favela, Carolina transformou a própria vivência em denúncia social e memória histórica, dando visibilidade às rotinas, às dores e às estratégias de sobrevivência de quem quase nunca ocupa os espaços centrais. Sua produção atravessa gerações ao revelar, com linguagem direta e sensível, a força de quem  escreveu para existir, resistir e afirmar a dignidade humana em um país profundamente marcado por desigualdades estruturais.

É a partir desse legado que o SETA entrevista Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina Maria de Jesus. A professora de literatura conduz o legado de uma história que mobiliza leitores, pesquisadores e movimentos culturais em todo o país. 

A potência da trajetória de Carolina foi celebrada pela Unidos da Tijuca ao eleger a escritora como tema do samba-enredo do Carnaval de 2026. A escola levou para a Marquês de Sapucaí a força de uma mulher que narrou a própria vida como ato político e transformou a sua voz em patrimônio cultural brasileiro. 

 Carolina Maria de Jesus: filha da escritora participa do SETA Entrevista: 

1: A obra de Carolina Maria de Jesus mostra que ela sempre foi à frente do seu tempo. Como você enxerga o legado da sua mãe, hoje, especialmente, para as novas gerações?

Como dizia Audálio Dantas (jornalista que descobriu Carolina Maria de Jesus): “Não houve e nunca mais haverá uma CAROLINA MARIA DE JESUS no Brasil e no mundo.” Minha mãe não tinha nada que a favorecesse, pois nasceu poucos anos após a abolição e sofreu o racismo por conta deste marco histórico que, como sabem, foi entre aspas. Ela sempre sonhou em ser escritora e ver grafado o seu nome num livro. Correu atrás dos seus sonhos e conseguiu por ser ousada. As novas Carolinas também devem seguir seus passos e lutar pelos seus ideais. 

2: Você acredita que a obra dela pode ser uma ferramenta potente dentro das escolas para discutir racismo e desigualdade social?

Certamente, pois as crianças e os adolescentes amam a história da Carolina. Tenho feito várias palestras em escolas e ouço muitas narrativas como as dela. Sempre digo que se Carolina pudesse reviver, escreveria QUARTO DE DESPEJO novamente pois não houve mudanças. O racismo está latente, mesmo que velado. As desigualdades sociais continuam tanto no Brasil quanto no mundo.

3: Como educadora, qual balanço você faz acerca da implementação da Lei 10.639 nas escolas brasileiras? Como o ensino poderia avançar nesse sentido?

As escolas têm progredido muito nas questões raciais porque, hoje, parte da população negra sabe por que luta e como luta para combater o racismo. Percebo o emponderamento dos negros graças ao conhecimento implementado pelas escolas, principalmente, por causa do trabalho de vários educadores. Carolina valorizava muito o estudo e os professores. Ela tinha ciência de que só conseguiu alcançar o seu objetivo de se tornar uma  escritora devido aquele ano e meio que estudou, apesar de não ter gostado da escola, mas sua professora foi categórica e a colocou para estudar. . 

4: O que você sente ao ver sua mãe sendo reconhecida cada vez mais como uma referência literária e histórica do Brasil? Demorou para que isso, de fato, acontecesse?

Minha mãe teve seus tempos áureos nos anos 60, mesmo com todos os problemas que enfrentou na época por ser considerada semianalfabeta, negra retinta, mãe solo, com filhos de homens brancos, estrangeiros e  favelada. Ela era uma mulher arguta e percebia claramente que não era aceita na sociedade, mas se mantinha altiva diante dos percalços que enfrentava. Por várias vezes fomos expulsos dos eventos devido à sua cor, mas quando se inteirava de que era a escritora, pediam que retornasse, porém ela não voltava atrás. Saíamos e não voltávamos.

Sofremos muito depois que ela se tornou famosa, mas no centenário o nome de Carolina ressurgiu muito forte e permanece cada vez mais relevante. Ao falecer, me deixou uma carta com vários pedidos. Dentre eles  não deixar a sua memória morrer. Por isso, tenho trabalhado para colocá-la cada vez mais em patamares altos, como eu  acredito que ela deve estar.

5: Quais aspectos da vivência de Carolina mais evidenciam a urgência de políticas educacionais voltadas para a valorização da população negra?

Talvez se a minha mãe vivesse hoje, a história dela seria vista com outros olhos. Ela teria mais oportunidades para estudar, pois sempre quis aprimorar o seu conhecimento, mas, ainda, estamos engatinhando nas nossas lutas porque enfrentamos muitas violências, e o racismo ainda está latente na nossa sociedade. O que nós temos que fazer é lutarmos para alcançarmos os nossos objetivos, pois temos mais direitos à fala. Minha mãe colaborou muito para que houvesse um reconhecimento negro, escrevendo um livro que revolucionou e, ainda, transforma o mundo mostrando a todos como o pobre, os favelados ou melhor, os menos favorecidos, lutam para conseguir um lugar ao sol.

Samba-enredo da Unidos da Tijuca destacou Carolina como a escritora que viveu, criou e transformou, colocando sua voz e obra no centro da narrativa cultural do país.

6: Qual balanço você faz do desfile? Teve algum momento que mais te emocionou?

Nunca esperei que a história dela fosse aclamada na Sapucaí. É  uma maneira para que todos conheçam a trajetória da escritora, principalmente, os adolescentes e as crianças que serão os multiplicadores do nome dela no futuro. Quando entrei na avenida, meus olhos estavam marejados, porque minha mãe me veio ainda mais à cabeça. Tenho certeza de que ela se emocionaria muito. Mas, pensei que eu tinha que me manter firme para honrar o nome dela através da minha presença no desfile.

7: A literatura da sua mãe retrata com força e sensibilidade a realidade das favelas. Você acredita que o enredo da Unidos da Tijuca pode ajudar a ampliar esse olhar na sociedade?

Com certeza, pois é um enredo que aborda tudo o que vivemos na favela e o que se vive até os dias de hoje. Ele ainda traz  a luta que as mulheres têm para sustentarem os seus filhos. Além disso, a violência permanece muito vigente, porque algumas mães perdem seus filhos mortos quase diariamente, e a fome permanece tanto no Brasil como em várias partes do mundo. O enredo é um grito para que os políticos olhem mais para nós.

8: O Carnaval é uma expressão forte da cultura afro-brasileira. De qual maneira você enxerga essa festa como ferramenta de valorização da ancestralidade e da memória negra?

Atualmente, a nossa luta é grande para que a memória negra e a nossa ancestralidade sejam valorizadas. Somente nós, os negros, sabemos da importância deste reconhecimento, principalmente. O carnaval é um meio para fazermos justiça pelo sofrimento dos nossos antepassados. Eu venho de família de escravizados e, mesmo após a abolição, a qual aconteceu entre aspas, posso falar que minha mãe sofreu muito, pois nasceu pouquíssimo tempo depois da libertação dos negros e por causa de sua cor retinta sofreu bastante, principalmente, na cidade na qual nasceu.

 

Voltar

Central de Ajuda.

Reunimos em categorias as respostas para as suas principais dúvidas. É só clicar no assunto que procura para filtrar as perguntas já respondidas.

O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.