Postado em: 23 junho, 2025
Festival LED promove debate sobre os valores civilizatórios afro-brasileiros e indígenas
Ana Paula Brandão mediou mesa que discutiu princípios afro-brasileiros e indígenas
Como os valores civilizatórios afro-brasileiros e indígenas podem renovar práticas pedagógicas e fortalecer a formação integral dos estudantes. Esse foi o tema discutido durante uma das mesas do Festival LED – Luz na Educação, que aconteceu no dia 14 de junho (sábado). Os painéis do evento foram divididos entre o Museu do Amanhã e o Museu de Arte Moderna, ambos na Praça Mauá, Zona Portuária do Rio de Janeiro. O encontro, que esteve em sua 4ª edição, foi promovido pela Globo, em parceria com a Fundação Roberto Marinho e Editora Globo, e teve dois dias de duração.
A gestora do Projeto SETA e diretora programática da ActionAid Brasil, Ana Paula Brandão, ficou responsável por conduzir a mesa “Energia Vital: mobilizando os valores civilizatórios afro-brasileiros e indígenas na Educação”, que reuniu Aliã Wamiri Guajajara, educadora artística, curadora e escritora; Luiz Rufino, professor e escritor; e Renato Nogueira, filósofo e professor.
Durante a abertura, Bruna Camargo, líder de projetos na Fundação Roberto Marinho, relembrou sobre os valores civilizatórios afro-brasileiros terem sido sistematizados pela professora Azoilda Loretto da Trindade, intelectual e educadora feminista negra.
De acordo com Ana Paula, a educação para as relações étnico-raciais tem papel fundamental no processo de transformação das pessoas e da realidade, pois amplia o horizonte, abre portas para outros saberes e outros povos, independente de cor, raça e etnias.
Afeto na educação: o ensino além do currículo escolar
Definido pelo dicionário como a base biológica das emoções e dos sentimentos, a afetividade, de acordo com Azoilda Loretto, é o décimo primeiro valor presente no dia a dia das pessoas, além da circularidade, oralidade, energia vital, corporeidade, musicalidade, ludicidade, cooperatividade ou comunitarismo, memória, religiosidade e ancestralidade. Itens citados por Ana Paula Brandão durante o início da mesa.
Para Renato Nogueira, o papel do afeto na educação tem a ver com equilíbrio. “É necessária uma composição afetiva que a gente não exploda e nem imploda. Não faça a violência para fora e nem para dentro. Então, a educação tem a ver com tornar isso possível, habitável. Tornar os nossos encontros viáveis. Nos respeitarmos e sermos capazes de controlar a temperatura dos afetos para termos uma vida que possa ser celebrada. Se a educação não fizer isso, há um desajuste”, comentou o filósofo.
Ainda falando sobre afetividade na educação, Aliã Wamiri Guajajara, educadora artística, comentou sobre o ensino ir além do currículo escolar. “A nossa ancestralidade nos ensina que precisamos nos cuidar, nos olharmos, para, então, podermos passar a afetividade ao outro. E são nessas construções de pensamentos indígenas que conduzimos os nossos saberes”. De acordo com Aliã, em alguns momentos esses saberes não estão em um espaço de educação, de cultura, mas, sim, na vivência. “O povo brasileiro é afetivo. Ele coloca as suas interculturalidades no nosso dia a dia. Então, nós, indígenas, aprendemos a principal pedagogia, a da terra, que é entender o que ela tem para nos ensinar”, disse.
Ensino de conteúdos afro-brasileiros e indígenas
Em momento dedicado às Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, respectivamente, no currículo escolar, os participantes expuseram suas opiniões acerca da baixa implementação das legislações.
Na visão de Luiz Rufino, existem itens, em suas palavras, cruciais para essa negação e irresponsabilidade. “A professora Iolanda Oliveira, da UFF, diz que a não aplicação da lei é como se fosse uma pessoa que assume conduzir um carro sem o cinto de segurança. Se você vê alguém ultrapassando a velocidade permitida e/ou sem cinto de segurança, temos a consciência que há um crime grave. Entretanto, a recusa de trabalhar a lei na escola não tem esse mesmo efeito”, salientou.
Para Rufino, a lei desvelou um pós-racismo. Para ele, é aquela situação em que se tem a adesão do tratamento da legislação na escola, mas que é trabalhada de forma pontual. “Com isso, nos desresponsabilizamos com a lavra cotidiana, do tratamento daquilo implicado a um exercício de ética responsiva”, comentou.
Falando sobre o ensino da história e cultura indígena, Aliã Wamiri comentou sobre a invenção do Brasil trazer um contexto de racismo colonial, segundo ela, um gênesis colonial implantado, difícil de limpar e de expandir as mentes. “Esses currículos tecnicistas colocam sempre nos livros didáticos o indígena de forma muito simplificada ou só uma etnia. Citam músicas de pessoas não indígenas para as crianças dançarem de tanga, para fazerem uma pintura indígena no rosto muito simplificada, que não tem nenhum significado. Porém, quando a escola abre essa rede de possibilidades de diversos grupos humanos, estamos lá dentro para colaborar, mediar, repassar e trocar”, finalizou.
A mesa foi encerrada com a leitura, feita por Ana Paula Brandão, de um trecho do artigo “Fragmentos de um discurso sobre afetividade”, escrito por Azoilda Loretto da Trindade, publicado em 2006, na obra “Saberes e Fazeres – Modos de Ver”, do projeto “A Cor da Cultura”, iniciativa da Fundação Roberto Marinho. Confira:
“Em outras palavras, porque o mundo é um montão de gente, um mar de fogueirinhas e para que as fogueirinhas existam, queimem, sejam calmas ou tenham a intensidade capaz de incendiar outras pessoas, é fundamental a nossa afetividade. Porque afetividade tem relação direta com o influenciar e ser influenciado, potencializar, possibilitar. Porque afetividade está relacionada ao gostar de gente, propiciar encontros, contatos, afetos e afetações. Porque afetividade nos reporta ao corpo e porque os corpos são potências, possibilidades, amorosidade. A afetividade é uma manifestação corporal, uma expressão corporal fundamental para os encontros, contatos, para as expressões de desejos, pensamentos individuais e coletivos, de emoções as mais diversas, de sentimentos como amor, ódio, cuidado. Em síntese, a forma, a maneira como estou/sou no mundo afeta o mundo, as pessoas”.