Postado em: 10 novembro, 2025
Fran Paula, da Conaq, explica como comunidades quilombolas ganham destaque diante da COP30
COP30 receberá líderes mundiais, cientistas e a sociedade civil para discutir e negociar ações de combate à crise climática
A capital paraense, Belém, foi o local escolhido para sediar a COP30 – 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas. Em entrevista ao SETA, Fran Paula, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ MT), uma das organizações que compõem a aliança do Projeto SETA (Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista), explicou como as comunidades quilombolas desenvolvem, historicamente, o manejo ecológico e sustentável da terra, dos bens comuns, das águas e das florestas. Confira a entrevista completa.
1: Como os saberes ancestrais das comunidades quilombolas se relacionam com o cuidado e preservação do meio ambiente?
É necessário pontuar que toda a sabedoria ancestral quilombola de povos e comunidades tradicionais traz muito conhecimento porque são povos que sempre exerceram uma vigilância ambiental em saúde do território. Então, as principais mudanças que hoje estão mais potencializadas e explícitas, essa população sempre observou e, com isso, desenvolve mecanismos, estratégias de adaptação, mas também de frear mudanças. Para as populações quilombolas, esse saber funciona como um termômetro de informações.
Buscamos também sempre recuperar equilíbrio a partir da sabedoria ancestral e do que já fazemos no território. São práticas e técnicas de conservação e preservação de biodiversidade, dos bens naturais, das águas e das florestas, porque são elementos fundamentais para a nossa existência e para a nossa vida.
São conhecimentos valiosos de quem está ali no território, no dia a dia, observando, manejando, adaptando. Por isso, são saberes que apontam para soluções possíveis a nível local, mas que podem ser ampliadas para nível mais global.
2: Qual é a importância de ouvir e incluir comunidades tradicionais, como os quilombolas, em espaços de decisão como a COP 30?
É fundamental ouvir e ter espaço de participação na COP30 para as comunidades, representações e lideranças dos territórios quilombolas. Já temos dados e diagnósticos suficientes que apontam essa população e territórios como os que mais preservam e conservam o meio ambiente, a vegetação e os biomas. Seria incoerente ter uma conferência para discutir os caminhos climáticos do Brasil e do mundo e não contar com a participação de povos que, por excelência, já fazem esse trabalho de preservação ambiental e de justiça climática.
3:De que forma as práticas tradicionais quilombolas podem inspirar soluções sustentáveis para a crise climática global?
As comunidades quilombolas desenvolvem, historicamente, o manejo ecológico e sustentável da terra, dos bens comuns, das águas e das florestas. É através dessas práticas, desses modos de viver e habitar que apontamos soluções que já promovem conservação ambiental, sustentabilidade, produção de alimentos saudáveis, manejo ecológico de floresta, de águas, ações locais que precisam ser fortalecidas nesses territórios, que precisam ser potencializadas, considerando a sua importância no contexto da pauta ambiental. E trazem soluções, é um conjunto de engenharias e técnicas ancestrais e sociais que são desenvolvidas por essas comunidades e que podem servir de exemplos e serem ampliadas a nível global também, como soluções importantes. Então, são práticas que já existem e que trazem inúmeros benefícios na saúde ambiental e na saúde das populações.
4:Você poderia citar exemplos concretos de ações ecológicas aplicadas por comunidades quilombolas?
O modo de vida dos quilombos é integrado com a natureza. A população quilombola vive uma biointegração com o meio ambiente. Não existe modo de viver quilombola ou modo de produzir. Também não existe conservação ambiental separada da vida dos povos que estão nessas comunidades e que vivem em coletividade. Então, esses são modos de se organizar e trazer ensinamentos importantes para toda a sociedade brasileira, que é o viver em comum com a natureza.
5: De que forma as políticas públicas podem apoiar o reconhecimento dos saberes quilombolas como fundamentais no combate às mudanças climáticas?
As políticas públicas são fundamentais para fortalecer esse manejo ecológico ancestral quilombola nos seus territórios da floresta e nos biomas. Infelizmente, o que acontece não é isso. Boa parte da população quilombola nem sequer é consultada sobre as políticas socioambientais do Brasil.
Ainda precisamos avançar muito para garantir o direito de escuta, de participação ativa dos povos e comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, na agenda ambiental do Brasil. Essa é uma das reivindicações. Temos políticas públicas ambientais que não reconhecem o papel e a contribuição desses territórios para a conservação ambiental, para a justiça climática e, ainda, criminalizam a existência, os modos de vida quilombola e indígena nesses territórios.
6: No seu ponto de vista, como a COP 30 vai trazer avanços para o meio ambiente? O que espera de melhorias após a conferência?
Particularmente, acredito que a COP30 vai evidenciar várias contradições, não só do Brasil, mas como no planeta. Não sei se avançaremos muito em termos de acordos internacionais, pois seria preciso uma mudança estrutural. Quando se pensa em transição justa, ecológica, é preciso, em primeiro lugar, garantir justiça, redução de desigualdades sociais, e não me parece que os modelos de desenvolvimento planetários caminham para esse sentido.
Se analisarmos o contexto de disputa territorial, das guerras que estão em curso, por exemplo, percebemos que têm a ver com justiça climática, porque isso está ligado ao acesso a território. No Brasil não é diferente: as populações quilombolas ainda aguardam do Estado brasileiro o reconhecimento dos seus territórios, que é fundamental.
7: Acredita que, após o evento, a população ficará mais sensibilizada com a temática?
Em termos da sociedade, ter um evento mundial acontecendo no Brasil com a pauta ambiental e climática, na Amazônia ainda, sem dúvida tem um apelo muito grande em termos de mobilização social. Esperamos que possa ser um momento oportuno para que a sociedade possa refletir sobre modelos de habitar, modelos de existir, de conviver com a natureza, repensar, como eu disse, os caminhos que o Brasil vem tomando nas suas políticas ambientais e nas suas políticas sociais. Por isso, acredito que isso vá fortalecer muito o movimento socioambiental no Brasil.