Postado em: 30 setembro, 2025
Marcelo Perilo, especialista em Monitoramento e Avaliação do SETA, conta suas experiências em visitas à sala de sigilo do INEP
Antropólogo explica sobre os protocolos adotados durante acesso às bases de dados nas de sigilo do INEP
Para atuar em prol da equidade racial na educação, o SETA realiza pesquisas e promove a incidência política, formações e campanhas de mobilização. Com o objetivo de realizar o primeiro tópico, a organização faz um processo minucioso de coleta de dados.
Para entender sobre esse processo, entrevistamos Marcelo Perilo, especialista em Monitoramento e Avaliação do SETA. O antropólogo contou os protocolos adotados para visitar as salas de sigilo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) e a importância de poder ter acesso às informações das bases de dados desse instituto. Confira a entrevista.
1: Como foi a experiência de visitar a sala de sigilo do INEP e o que você destaca dessa visita?
O Brasil é uma referência internacional em termos de produção e difusão de dados sobre educação. Muitos pesquisadores de vários países vêm até aqui para estudar os dados que temos. Grande parte dessas informações estão disponíveis em bases de acesso irrestritas e on-line. Por exemplo, o Censo da Educação Básica e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) estão disponíveis no site do INEP, e as pessoas podem entrar a qualquer momento. Porém, o Serviço de Acesso a Dados Protegidos (Sedap), do INEP, disponibiliza dados adicionais mediante visita presencial que as bases online não apresentam.
Então, por meio da visita às salas de sigilo teremos informações adicionais e cruciais para o entendimento e uma leitura mais aprofundada e mais adensada sobre a educação no Brasil. Em especial, para iniciativas como o Projeto SETA, que buscam uma leitura interseccional sobre esses dados, a fim de interrelacionar gênero, cor, raça e territórios, por exemplo.
2: Qual a importância, para o SETA, de acessar a sala com os dados protegidos do INEP?
Ler com mais precisão os processos relativos à educação básica, especialmente, a trajetória educacional de estudantes e fazer uma interpretação que não é viável quando acessamos as bases on-line.
Temos acesso a informações sobre muitos aspectos relativos aos estudantes, às turmas, às escolas, aos professores e professoras e às pessoas gestoras. Então, é possível saber sobre diversos temas, incluindo, por exemplo, a infraestrutura presente nas escolas, o perfil das pessoas gestoras e o de docentes. Isso para falar do Censo Escolar, mas há outras bases.
Podemos realizar uma leitura desses dados e seu cruzamento para que seja possível acessar, enxergar e considerar sua leitura numa perspectiva interseccional. Assim, conseguimos interpretar esses dados relativos à educação básica de modo tal que favoreça a compreensão da relação do racismo dentro da educação básica e outras opressões, como as relativas a gênero.
3: Quais protocolos de segurança são adotados durante o processo de coleta e análise dos dados sigilosos?
O INEP indica uma série de procedimentos a fim de que haja viabilidade técnica para a consulta aos dados nas salas de sigilo e também procedimentos éticos com a finalidade de que os dados sejam mantidos ali no escopo da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Em primeiro lugar, é necessário submeter um projeto que comprove a viabilidade teórica e técnica da proposta de coleta de dados. Uma vez aprovado o projeto, é necessário agendar uma visita a alguma sala de sigilo no Brasil. Depois que a visita for aceita, a pessoa pesquisadora entrará na sala propriamente dita. Nela não é permitido entrar com nenhum equipamento eletrônico e nada que favoreça qualquer tipo de registro imagético, textual ou estritamente sonoro. Isso acontece porque há uma estrutura muito organizada de proteção aos dados. É importante dizer que, nas salas de sigilo, não temos conexão com a internet para além do servidor com as bases de dados protegidos. Dentro das salas, temos acesso ao computador com uma rede relacionada à base que escolhemos. Então, não conseguimos checar nenhum outro dado, nenhuma outra página, senão àquilo que solicitamos ao INEP.
Depois de todo o tratamento das bases de dados que é feito dentro das salas de sigilo, saímos dela e encaminhamos um e-mail para o INEP requerendo os dados que trabalhamos nesses espaços. O órgão, então, vai avaliar se as informações que trabalhamos e as tabelas que geramos a partir desses dados podem ser extraídas das máquinas. Não há garantia de que o pesquisador irá receber todo o material que foi trabalhado.
O INEP faz uma leitura para verificar se nenhum conteúdo apurado pela pessoa pesquisadora compromete a LGPD. Portanto, só após essa leitura, eles encaminham um conjunto de tabelas referente à pesquisa na sala de sigilo.
4: Por que o INEP foi uma das instituições escolhidas para essa visita técnica?
Porque é o instituto que efetivamente produz e salvaguarda esses dados. Então, seja o Censo Escolar, seja o Saeb, outras bases ou outras pesquisas relativas à educação no Brasil, essas são informações que o INEP produz. Existem outros institutos, oficiais ou não oficiais, mas a escolha pelo INEP é o acesso a bases de dados extremamente relevantes que dizem respeito à educação básica no país como um todo.
Existem institutos estaduais que produzem análises sobre educação dentro de estados específicos no Brasil, mas precisamos acessar informações gerais sobre a educação no país como um todo. Dentro dessas bases, que contêm dados educacionais no país, podemos especificar se queremos dados recortados por estado, por cidades ou por escola, por exemplo. Então, podemos ter tanto uma visão macro sobre o Brasil como visões muito específicas e pontuais, mas sempre dentro do escopo das mesmas bases, o que permite comparação dentro do conjunto dos mesmos dados.
5: Qual é a sensação de ser um dos poucos a acessar tais informações?
Uma oportunidade muito relevante, porque o acesso aos dados protegidos do INEP ocorre estritamente de modo presencial. E, se um pesquisador ou uma pesquisadora precisar recorrer a essas bases, será necessário um deslocamento até as salas de sigilo, que ainda são poucas no Brasil. Então, muitas vezes, é necessário viajar para acessar esses dados. E uma visita para esse tipo de trabalho não pode ocorrer em um período menor que uma semana.
Além disso, essa atividade demanda um investimento grande em termos de recursos financeiros, humanos e estratégias logísticas para o acesso aos dados. Felizmente, existem alguns projetos, algumas organizações, que podem investir no acesso a esses dados.
Uma vez que se tenha oportunidade de fazer isso, visitar essas salas é como ter acesso a um grande tesouro, que são dados protegidos e restritos relativos à educação. E essa tarefa exige muita cautela e competência, capacidade de escolha da pessoa pesquisadora, porque são muitas informações, são muitas variáveis e são bases muito robustas.
Portanto, se não há um foco muito preciso e uma decisão sobre o que se fazer, é muito fácil que se perca. Essa capacidade de escolha gera uma responsabilidade enorme da pessoa pesquisadora. Um terceiro e último aspecto que eu vou mencionar e que compete a minha formação como antropólogo, que é uma ideia de considerar os imprevistos ou, como se diz comumente na antropologia, os imponderáveis como parte do processo da pesquisa.
6: Quais os próximos passos após a visita?
Nas salas de sigilo já há um processo muito intenso de trabalho, de leitura dos dados, a priorização de variáveis com as quais o trabalho será realizado e o cruzamento dos dados, sendo que a interpretação deles é uma etapa posterior, ou seja, fora das salas. Uma vez que recebemos as tabelas que foram trabalhadas na sala de sigilo, conseguimos fazer a leitura adequada desses materiais para correlacionar as informações coletadas com a literatura especializada. Estamos falando de referências bibliográficas, pesquisas similares sobre a educação básica e outros tipos de documentos. Essa etapa vai gerar uma capacidade, uma potencialidade de interpretação das pessoas pesquisadoras, porque é o momento de cruzar dados com teoria para gerar um conhecimento inédito sobre a educação básica no Brasil.
Acredito que o serviço do SEDAP é uma política pública muito extraordinária e que precisa ser valorizada e fomentada no país. Isso é uma forma de reconhecer o quanto nós temos, no Brasil, iniciativas relativas à educação que são robustas e lidas como referência internacional. É importante que haja mais salas de sigilo pelo país, para que isso facilite a visita de pesquisadores espalhados em várias regiões, mas só desse serviço em si existir já é um grande trunfo para quem trabalha com pesquisas relativas à educação no Brasil.