Artigos | Postado em: 14 maio, 2026
Professores inspiram ações globais por justiça racial na educação
Escrito por: David Archer, Sharon Walker, Zama Mthunzi, Arathi Sriprakash e Jáfia Naftali Câmara.
O racismo é um problema global — e, possivelmente, crescente. Ainda assim, programas voltados para práticas educacionais antirracistas raramente são priorizados e sustentados nas agendas políticas nacionais e globais.
O projeto Global Action for Racial Justice in Education apresenta iniciativas inspiradoras de educação antirracista ao redor do mundo — muitas delas lideradas por estudantes, professores, ativistas e organizações da sociedade civil — para demonstrar as possibilidades de futuros antirracistas e fortalecer a solidariedade global em prol de ações políticas antirracistas.
Com o apoio da Education International, do Global Student Forum e da Global Campaign for Education, nosso projeto já identificou mais de 130 iniciativas de educação antirracista em diferentes partes do mundo que enfrentam o racismo, o sistema de castas, a islamofobia, a descolonização e outras estruturas relacionadas de dominação e preconceito na educação. Por meio de entrevistas e pesquisas de estudo de caso, analisamos como a educação antirracista é concebida e implementada em diferentes contextos políticos, culturais e sociais.
Esse trabalho dialoga com os compromissos assumidos em uma resolução aprovada no 10º Congresso Internacional da Education International, realizado em Buenos Aires em 2024, que enfatizou que a organização promoveria e protegeria os direitos humanos “independentemente da identidade racial, origem cultural, classe social ou religião e crença”. A resolução reconhece que “professores e demais profissionais da educação, como figuras centrais na construção dos ambientes educacionais, têm um papel crucial na promoção da inclusão e no combate à discriminação”. O documento também deliberou pela realização de campanhas para introduzir competências culturais, consciência antirracista e combate à discriminação de castas nos programas de formação inicial e continuada de profissionais da educação.
Nosso trabalho revela as muitas formas pelas quais os professores desempenham, de fato, um papel fundamental na educação antirracista. Identificamos diversos exemplos de como docentes fazem a diferença em contextos bastante variados. Ao reunir esses relatos, argumentamos que esse trabalho demonstra também como os professores estão inspirando e impulsionando ações globais por justiça racial na educação.
Professores estão atuando coletivamente para criar sistemas educacionais antirracistas
- No Brasil, a Escola Comunitária Luiza Mahin surgiu a partir de um protesto de moradores locais, majoritariamente mulheres negras, contra a exclusão de crianças de 2 a 5 anos do sistema público de educação. A escola tem como prioridade central o fortalecimento racial e de gênero, acolhendo e valorizando crianças negras, promovendo sua identidade, autoestima e consciência crítica desde a primeira infância.
- A Rede de Professores Antirracistas é uma rede de professores que cria estratégias para ações antirracistas dentro e fora da escola. Atua de forma coletiva, construindo conhecimentos práticos e reunindo docentes de todo o Brasil interessados em construir uma escola mais diversa, respeitosa e antirracista.
Professores estão desafiando regimes racistas
- A Satyashodhak Shikshak Sabha (Associação de Professores em Busca da Verdade) é um coletivo de base de professores em Maharashtra, na Índia, fundamentado em uma filosofia anticaste e comprometido em enfrentar as desigualdades sociais presentes no sistema escolar indiano. O grupo realiza oficinas com professores não apenas como formações, mas como espaços de pedagogia crítica voltados ao enfrentamento das ideologias políticas dominantes e casteístas.
- A Te Akatea representa lideranças e educadores Māori no sistema educacional de Aotearoa/Nova Zelândia, oferecendo programas de liderança culturalmente fundamentados que fortalecem as conexões entre escolas e comunidades Māori. A organização denuncia o racismo sistêmico e critica tentativas de recolonização da educação.
Professores estão desenvolvendo práticas antirracistas em suas escolas e setores
- A COPERA atua há mais de quinze anos no México com iniciativas antirracistas e recentemente passou a levar abordagens antirracistas e antiopressivas para escolas públicas em contextos profundamente desiguais e frequentemente violentos. Desde oficinas em sala de aula até conferências escolares, o grupo aborda o racismo por meio de uma perspectiva interseccional baseada em experiências vividas, e não apenas em teorias abstratas.
- O Movimento Antirracista (ARM) é uma organização feminista e antirracista que atua no Líbano, enfrentando o sistema Kafala e levando seu trabalho para escolas públicas e privadas do país. Um de seus principais focos é a educação antirracista nas escolas — iniciativa que só foi possível porque educadores construíram essa ponte. Em alguns casos, o ARM entrou em contato diretamente com as escolas; em outros, foram os próprios professores que convidaram a organização. O impacto se espalhou como um efeito dominó: uma escola, um professor inspirado, que conta para outro colega, e assim por diante.
Em uma publicação recente, mostramos como o racismo continua sendo um grande obstáculo para a igualdade educacional, argumentando que três mitos precisam ser enfrentados para acelerar o avanço em direção ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4), voltado à educação:
- A ideia de que o racismo é um problema apenas de alguns países: O que é claramente falso, já que nossa pesquisa documenta iniciativas antirracistas em países tão diversos quanto Líbano, Índia, Nova Zelândia, Senegal e México.
- A ideia de que não podemos falar sobre racismo devido à falta de dados comparativos: Quando, na prática, é plenamente possível documentar os impactos do racismo estrutural, como começamos a fazer.
- A ideia de que o racismo é politicamente sensível demais para ser abordado no ODS 4: Quando qualquer desigualdade educacional deve ser reconhecida como um problema político, o que significa que as soluções também precisam, necessariamente, ser políticas. Não impedimos sistemas de opressão deixando de nomeá-los.
Além disso, queremos reconhecer que genocídio e bombardeios direcionados a escolas são questões de justiça racial. Professores e estudantes em diferentes partes do mundo têm enfrentado violência contínua, inclusive na Palestina, no Líbano, no Sudão e no Irã, onde milhares de crianças foram mortas em escolas. Outras ficaram anos sem poder frequentar aulas porque suas escolas foram destruídas ou transformadas em abrigos. Qualquer estrutura antirracista pós-ODS 4 deve enfrentar o genocídio, a destruição das escolas e o assassinato de crianças e professores. Construir um sistema educacional antirracista é impossível nessas condições.
À medida que começamos a refletir sobre o que deve vir após o marco dos ODS para a educação, este é o momento de trabalharmos coletivamente para desafiar mitos e transformar tanto o discurso quanto as práticas, para finalmente enfrentar as questões de justiça racial na educação e construir sistemas públicos de ensino antirracistas em todos os lugares.
Junte-se a nós nessa luta para romper o silêncio sobre o racismo na educação. No dia 6 de maio, lançamos um novo site para conectar professores, ativistas e formuladores de políticas públicas em torno da construção de sistemas educacionais antirracistas.
Confira como foi o webinar multilíngue de lançamento por meio deste link.