Artigos | Postado em: 13 janeiro, 2026

Do atendimento emergencial à equidade: o caso da educação de crianças e jovens (i)migrantes no norte do Brasil

Por Jáfia Naftali Câmara, Doutora em Educação, pesquisadora na Universidade de Bristol (Inglaterra) e representante global do Projeto SETA

Este documento de trabalho, publicado pela UNESCO, defende a necessidade de uma transição das respostas educacionais humanitárias e emergenciais para uma política de educação equitativa, contínua e sustentável voltada a crianças e jovens imigrantes e refugiados no Brasil. O estudo tem como foco a região Norte, especialmente o estado de Roraima (principal porta de entrada de migrantes venezuelanos no país, entre eles diversos povos indígenas).

A pesquisa analisa o marco legal brasileiro para a educação inclusiva, que assegura o direito à educação a todas as pessoas, independentemente de sua situação migratória, e examina os desafios enfrentados na implementação dessas políticas no cotidiano das redes públicas de ensino. Realizado entre 2023 e 2024, o estudo adotou uma metodologia de métodos mistos, com entrevistas, observações em escolas e aplicação de questionários junto a professores, gestores, famílias e autoridades locais.

Embora políticas como a Resolução nº 1/2020 do Conselho Nacional de Educação garantam o direito à matrícula de estudantes migrantes e refugiados, o artigo demonstra que sua implementação ocorre de forma desigual e frequentemente é fragilizada por abordagens humanitárias de curto prazo. Entre os principais desafios identificados estão as interrupções no percurso escolar causadas pelo programa de interiorização, a insuficiência de formação especializada para professores e a carência de materiais adequados para estudantes multilíngues, especialmente falantes de warao e espanhol. As redes municipais também enfrentam dificuldades decorrentes da rotatividade imprevisível de alunos e da limitação de recursos financeiros e institucionais.

O estudo evidencia que, embora escolas e professores sejam os principais responsáveis pela inclusão das crianças recém-chegadas, eles operam com apoio sistêmico e estrutural insuficiente. Ainda assim, iniciativas locais lideradas por educadores revelam forte capacidade de ação territorial e apontam caminhos promissores para o fortalecimento de políticas públicas mais consistentes.

Por fim, o artigo conclama formuladores de políticas a adotarem uma perspectiva de planejamento educacional de longo prazo, superando abordagens baseadas em respostas emergenciais. Entre as recomendações centrais, destacam-se: (1) o fortalecimento da coordenação interinstitucional para garantir a continuidade educacional das crianças e jovens (i)migrantes; (2) a ampliação do financiamento para formação docente intercultural e plurilíngue, especialmente voltada a estudantes indígenas; (3) o reconhecimento formal dos direitos dos migrantes indígenas nas políticas educacionais; e (4) o investimento direcionado em infraestrutura escolar capaz de responder às oscilações de matrícula e às diferentes necessidades linguísticas. O estudo reforça, por fim, que a equidade deve orientar todos os níveis das políticas e práticas educacionais, reconhecendo a migração e a mobilidade humana como realidades sociais duradouras.

Introdução

A migração internacional se intensificou no Brasil e na América Latina desde a década de 2010, criando um cenário em que os sistemas educacionais precisam, com urgência, garantir o acesso à educação, a permanência dos estudantes e trajetórias de sucesso para populações deslocadas e comunidades de acolhimento.

Os desafios da garantia do direito à educação de crianças e jovens (i)migrantes no norte do Brasil, com foco especial no estado de Roraima, principal porta de entrada de migrantes vindos da Venezuela.

Direito à educação na legislação brasileira

O Brasil garante, por meio da Resolução nº 1/2020 do Conselho Nacional de Educação, o direito de matrícula de crianças migrantes, refugiadas, apátridas e solicitantes de refúgio na rede pública de ensino, independentemente de sua situação migratória.

Pressão sobre os sistemas públicos

Entre 2010 e 2020, o número de estudantes (i)migrantes na educação básica cresceu mais de 65%, sobrecarregando especialmente os municípios, responsáveis pela maior parte da oferta de educação básica.

Contradições das políticas públicas

A política de resposta humanitária emergencial, como a Operação Acolhida, tem gerado soluções improvisadas, como escolas em prédios adaptados e processos de interiorização que interrompem trajetórias escolares.

Recursos insuficientes

A falta de formação docente específica, materiais pedagógicos e infraestrutura adequada limita a efetividade da política de inclusão educacional.

Práticas locais e iniciativas escolares

Apesar das dificuldades, escolas e professores desenvolveram iniciativas importantes como contratação de docentes bilíngues, uso de translanguagem, sinalização trilíngue e fortalecimento do vínculo com famílias.

Conclusão

A educação de crianças (i)migrantes deve ser tratada como política estrutural e permanente, com foco na equidade, e não apenas como resposta emergencial.

Leia o artigo completo aqui.

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Jáfia Naftali Câmara é doutora em educação, pesquisadora na Universidade de Bristol, Inglaterra e representante internacional do Projeto SETA. Seu trabalho se enquadra na sociologia da educação e nas geografias críticas da educação. Seus interesses incluem política da educação, economia política da educação e marxismo.

 

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.