Postado em: 15 agosto, 2025

Capacitismo e racismo: mãe conta sua experiência com as filhas que têm Transtorno do Espectro Autista

Em entrevista ao SETA, Daniele Evangelista fala dos desafios enfrentados com suas filhas portadoras do Transtorno do Espectro Autista

 

Classificado pelo Ministério da Saúde como um distúrbio caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento do indivíduo, o Transtorno do Espectro Autista (TEA), interfere na capacidade de comunicação, linguagem, interação social e comportamento.

De acordo com o Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. Isso corresponde a 1,2% da população brasileira, segundo o órgão.

Daniele Evangelista é administradora de empresas e mãe de duas crianças, uma de 12 e outra de 7 anos. Em entrevista ao SETA, ela contou sobre sua experiência com o TEA, desde o diagnóstico até os desafios escolares, o capacitismo e o racismo enfrentado pelas filhas, sobretudo, no ambiente escolar. A conversa deu espaço para um assunto muitas vezes esquecido na sociedade: o racismo enfrentado por pessoas negras e com deficiência em diferentes ambientes. Confira.

 

1: Você já enfrentou alguma situação em que o racismo atravessou o atendimento ou acolhimento às suas filhas?

A minha filha mais velha estudou numa escola por apenas um mês, porque um dia, quando estávamos saindo com ela, uma coleguinha contou para o pai que a professora havia a xingado. E eu ouvi aquilo, foi um choque. Era visível que no caso dela, que tinha um comportamento muito passivo, não tinha outra motivação para uma professora ser agressiva com ela dessa forma, a não ser o racismo. Porque ela era uma criança muito quieta nessa fase, que ficava muito centrada em si mesma e totalmente desfocada, distraída e envolvida no seu próprio mundo.

Com isso, o nosso desafio se torna ainda maior, pois estamos falando das crianças pretas, como as minhas, num país em que mais da metade da população é preta. Essa realidade não pode ser ignorada na inclusão. Os comportamentos que seriam lidos em uma criança branca dentro do espectro, vão ser interpretados com mais dureza. Eu já vi isso mais de uma vez, vejo também uma vulnerabilidade maior ao serem afetadas pela violência dentro da escola. É o racismo somado ao capacitismo. 

2: Como você enxerga o sistema de ensino escolar para as crianças negras e com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

Eu penso que as nossas crianças merecem mais, merecem escolas que verdadeiramente incluam, que as diferenças de raça, de deficiência e gênero não sejam barreiras para que elas estejam naquele ambiente. Desejo que os profissionais sejam capacitados e que a sociedade, principalmente, entenda que inclusão não é um favor, é um direito. Elas têm essa garantia.

No contexto de escolas, existe uma regra que elas próprias inventaram de que só podem ter duas crianças com deficiência por turma, mesmo nas instituições públicas. Isso cria um limbo, porque é impossível de praticar. Temos alunos com inúmeras deficiências, não só o Autismo. Antigamente, os autistas não eram vistos porque estavam trancafiados dentro de casa ou em manicômios e em clínicas psiquiátricas amarrados como se fossem bichos vivendo de maneira insalubre. Esse é o histórico de autismo no mundo. Hoje, as pessoas têm acesso à informação.

Mas, o tratamento na escola, a partir do momento que você tem um diagnóstico, é devastador. Primeiro, as pessoas vão tratar de imediato o seu filho como um problema, e elas vão fazer de tudo para que você não o matricule naquele local.

Um dos piores momentos da minha vida foi quando recebi um e-mail do diretor de uma instituição dizendo que ele tinha vaga, sim, mas não para uma criança com deficiência como a minha filha. Ler que seu filho não é bem-vindo numa escola por causa da deficiência, antes mesmo de conhecerem sua realidade e saberem do potencial dele, do que ele é capaz, foi muito avassalador.

3: Ainda falando sobre sistema escolar, na sua visão, o que ainda falta para as escolas serem verdadeiramente inclusivas?

Falta estudo, preparo para os profissionais que já estão na escola e a presença de mais pessoas capacitadas para atender e acolher as crianças que têm necessidade de acompanhamento individual. É preciso, ainda, um mapeamento de competências para esses profissionais. Nós temos muitos educadores que deveriam estar trabalhando em qualquer outra coisa na vida, menos na área de educação, mas que lá estão por causa do salário estável, do concurso público, e que são uma verdadeira tragédia para o sistema de aprendizado.

Mas, em termos de crianças com deficiência, é essencial estudarem sobre autismo e sobre outras condições, porque, muitas vezes, elas vêm com novidades, mas faltam colaboradores, equipamento e, acima de tudo, vontade de saber o que faz acontecer.

4: Como você lida com o capacitismo relacionado ao autismo no dia a dia dos seus filhos?

A minha luta contra o capacitismo é o tempo inteiro estar brigando, seja com argumentação em reuniões, com a direção da escola, com a coordenadora, com a coordenadoria de educação, entrando em confronto ou usando os mecanismos da justiça. Então, desde que eu aprendi a usar o Ministério Público também, tem horas que eu nem entro diretamente na briga, eu abro uma ação e já consigo que as garantias sejam  atendidas via ofício. Só que é muito desgastante saber que, muitas vezes, elas têm seus direitos negados sem qualquer explicação.

Com isso, é delicado lutar por espaço, pelo direito à permanência, à presença, mas é, também, sobre ensinar a elas a batalharem por si mesmas no futuro. Um dia eu não vou estar aqui e elas vão precisar ter essa referência de como fazer.

Luto usando o meu argumento também, mas, principalmente, ferramentas jurídicas.

5: Já sentiu que sua voz, como responsável de crianças autistas, foi silenciada ou ignorada?

Esse sentimento passa pela nossa existência, a minha e de outros responsáveis de crianças autistas o tempo inteiro. É como se tudo pelo o qual nós batalhamos em termos de direito e acesso, batesse numa parede e voltasse, porque os avanços são muito lentos.

Então, muito da luta que nós enfrentamos hoje, não necessariamente vai ter resultado para essa geração ou alcançar a vida das minhas filhas, mas, talvez, alcance a vida de outras crianças no futuro.

A sensação é de falar para as paredes em muitos momentos, pois não temos avanços, a gente dá um passo para frente e vinte para trás.

Por exemplo: acontece de existir uma liminar que derruba um direito relacionado ao plano de saúde e, com isso, o tempo inteiro temos que acionar a justiça para que as prestadoras garantam o direito às terapias que já está previsto em lei, mas só conseguimos acesso judicializando uma ação para garantir esse direito.

Isso tudo gera um desgaste  e é uma tentativa de apagamento, de silenciamento, na verdade, de nos vencer pelo cansaço, não só a mim, mas a todos os responsáveis de crianças, adolescentes e adultos portadoras do TEA. Por isso, em muitos momentos, sinto que a nossa luta é negligenciada.

6: O que você gostaria que a sociedade compreendesse melhor sobre inclusão, especialmente, de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

O meu desejo é que a sociedade entenda que estamos falando de um transtorno que é um espectro, então, cada autista, assim como cada ser humano, é único no seu grupo de características. O autismo não significa ausência de inteligência. Mesmo um autista com nível 3 de suporte é uma pessoa com direitos, merecedora de espaço para existir na sociedade.

Em termos de inclusão, gostaria que a sociedade tivesse vontade de respeitar as diferenças, de acolher e de aprender sobre as singularidades de cada criança dentro do espectro. Sempre defendo o olhar para além do espectro, porque, principalmente, no nosso caso, estamos falando de crianças que são atravessadas e que estão em mais de um grupo de minoria sub-representada, ou seja, jovens pretas que também são autistas, que, muitas vezes, têm outras comorbidades e um conjunto de características que as colocam em situação vulnerável.

Observo muito dentro do ambiente escolar a dureza como as nossas crianças pretas são tratadas, vejo como, muitas vezes, uma menina ou menino negro que apresenta uma deficiência também são negligenciadas, então é uma batalha que caminha junto: a  bandeira antirracista e a anticapacitista.

A luta pela inclusão é um projeto de vida que precisa ser também para quem não está no espectro, assim como não basta não ser racista, é preciso ser antirracista, não basta não ser capacitista, é importante também ser anticapacitista. Por isso, é importante repensar como nós somos, é preciso olhar para os nossos comportamentos. Enfim, é ver a humanidade com uma percepção de diversidade, porque uma vez que você está dentro de um grupo não tem como querer que só ele tenha um olhar de cuidado e que os outros sejam deixados de lado. É preciso olhar realmente para todos.

 

Voltar

Central de Ajuda.

Reunimos em categorias as respostas para as suas principais dúvidas. É só clicar no assunto que procura para filtrar as perguntas já respondidas.

O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.