Postado em: 19 março, 2026

Dia Mundial da Infância: especialistas reforçam a importância da educação antirracista

Crianças durante atividade promovida pela Creche Betinho

Dia Mundial da Infância destaca a educação antirracista e a autoestima das crianças

O Dia Mundial da Infância, celebrado em 21 de março, traz para o centro do debate a importância da implementação da educação antirracista nos primeiros anos de vida escolar. O método de ensino promove referências positivas, amplia horizontes e estimula sonhos. Ao incluir autores, cientistas, artistas e lideranças negras nos conteúdos pedagógicos, a escola cria espaços seguros para que as crianças desenvolvam confiança e orgulho de sua identidade.  

No Rio de Janeiro, a Creche Municipal Betinho, localizada na Favela da Chatuba, no Complexo da Penha, desenvolve com seus alunos diversos projetos a fim de implementar a educação antirracista na primeira infância. Uma das iniciativas conduzidas aborda a valorização dos saberes e fazeres periféricos, dialogando diretamente com o território, a partir de várias reflexões, principalmente, sobre como a localidade foi historicamente marginalizada. 

“Essa escolha também nasce de tudo o que vivemos no ano passado, quando houve uma operação, resultando em diversas mortes no território. Isso teve impacto direto nas famílias e crianças, pois, muitas vezes, elas acabam tendo acesso apenas a essas narrativas. Então, a nossa proposta é, justamente, mostrar a potência desse lugar e que dentro das favelas existem muitas outras histórias para além da subalternidade e da violência”, destaca Estela Martins, Diretora Geral da Unidade Escolar.

Dia Mundial da Infância: creche como ferramenta para o desenvolvimento de respeito e igualdade 

De acordo com a diretora, a creche tem um papel fundamental na construção de valores como respeito, diversidade e igualdade desde os anos iniciais de vida, porque é um dos primeiros espaços coletivos de convivência das crianças. 

“É nesse ambiente que elas começam a perceber as diferenças, aprender a compartilhar, a ouvir o outro e a reconhecer que existem muitas formas de ser, viver e pertencer ao mundo. Quando a creche assume intencionalmente práticas pedagógicas que valorizam diferentes culturas, histórias e identidades, ela contribui para formar crianças mais sensíveis às diferenças e comprometidas com relações mais justas. Trabalhar esses valores desde a primeira infância ajuda a construir bases sólidas para uma sociedade mais respeitosa, diversa e menos marcada por preconceitos”, salienta. 

A profissional destaca que a educação antirracista não é um tema à parte do currículo, não é um projeto ou questão de datas especificas. Ela precisa atravessar todo o trabalho pedagógico. De acordo com Estela, começar na primeira infância significa ajudar a construir uma sociedade mais justa desde o início da vida, o que se faz com intencionalidade pedagógica, estudo, escuta e, principalmente, compromisso diário.

Educadores recebem formação antirracista

Os educadores da Instituição de Ensino fazem parte de um grupo de 1.400 profissionais de educação que participaram do Programa Território Educador. A formação é voltada à promoção da equidade racial na educação, que disponibiliza ferramentas para a construção de práticas pedagógicas alinhadas à equidade racial e ao reconhecimento do Currículo Carioca como um instrumento de combate ao racismo e promoção da inclusão. O curso é fruto de uma parceria com o SETA, oferecido por meio da Gerência de Relações Étnico-raciais (GERER), da Secretaria Municipal de Educação. 

De acordo com Maria Correa, Especialista em Articulação e Gestão Educacional do SETA, a educação integral precisa, necessariamente, implementar a perspectiva da luta contra o racismo. 

“Para que a escola seja antirracista é fundamental que os professores também sejam e suas práticas reflitam esse princípio. Na primeira infância, estamos construindo caminhos, conceitos e aprendizagens que serão levados por toda a vida. Nessa fase, é preciso ter respeito às diferenças, comunitarismo, no sentido de se entender como parte de uma comunidade, circularidade de saberes e crenças. Além de ter entendimento de que as pessoas negras, indígenas e quilombolas também construíram e constroem a sociedade brasileira com seus saberes, sua inteligência e sua participação”, afirma. 

As primeiras duas turmas do programa Território Educador, em 2024 e 2025, formaram cerca de 1.400 profissionais da educação do município carioca e beneficiaram, diretamente, mais de 50 mil alunos da rede. 

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.