Postado em: 8 junho, 2026
Educação infantil afrocentrada no combate ao racismo
Especialista destaca caminhos da educação infantil afrocentrada e práticas antirracistas
Organizadora do e-book Educação Infantil Afrocentrada, Fernanda Lopes Rodrigues, destaca, em entrevista ao SETA, a importância de integrar teoria e prática no enfrentamento ao racismo nas escolas. Além disso, a especialista aborda os desafios, os avanços e os impactos de uma educação que valoriza identidades, territórios e pertencimentos desde a primeira infância. Confira.
1: O que motivou a elaboração do e-book e qual é o principal objetivo?
O e-book resulta de um curso de aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais na Educação Infantil, realizado no Maranhão, que contou com a participação de 368 cursistas concluintes. Desde a sua concepção, o curso teve como foco levar a discussão teórica para o espaço da sala de aula e promover intervenções concretas na realidade escolar.
A proposta foi incentivar que professores implementassem práticas pedagógicas em suas escolas e, a partir dessas experiências, produzissem relatos que pudessem ser compartilhados. Esses registros deram origem ao e-book.
Assim, o principal objetivo é oferecer referências reais e contextualizadas para outros educadores, mostrando caminhos possíveis de implementação da educação para as relações étnico-raciais na educação infantil, sempre considerando as especificidades de cada território e prática docente.
2: Como você define uma educação infantil afrocentrada?
A educação afrocentrada é uma perspectiva teórica, metodológica e pedagógica que coloca a experiência negra e afrodiaspórica no centro das práticas educativas. Diferentemente de abordagens pontuais, ela estrutura o currículo e valoriza identidades, ancestralidade e pertencimento, indo além de uma lógica eurocêntrica e propondo uma visão pluriversal.
Educação infantil afrocentrada na prática
3: Por que iniciar práticas antirracistas na primeira infância?
O racismo atinge crianças desde muito cedo, inclusive, antes do nascimento, impactando a população negra já na vida intrauterina. Por isso, o enfrentamento também precisa começar desde o início da vida. A escola, especialmente na educação infantil, é um dos primeiros espaços de socialização fora da família, onde muitas crianças têm contato com práticas discriminatórias, inclusive na forma como recebem cuidado e afeto.
Diante disso, iniciar práticas antirracistas desde a primeira infância é fundamental para fortalecer a construção da identidade. Ao conhecer as suas origens, valorizar a sua história e reconhecer as contribuições africanas e afrodiaspóricas, a criança passa a se perceber de forma mais positiva e a questionar referências negativas, desenvolvendo bases mais sólidas para a sua vida em sociedade.
4: Como incorporar culturas afro-brasileiras e indígenas no cotidiano escolar?
A cultura e a história indígena, africana e afro-brasileira devem estar no âmbito do currículo e do projeto político-pedagógico. As temáticas não podem ser uma atividade pontual da professora ou do professor, mas, sim, uma responsabilidade institucional. É preciso que isso esteja previsto desde os materiais didáticos e planos de ensino até as políticas educacionais mais amplas.
Não se trata apenas de incorporar conteúdos ou realizar atividades em datas específicas, como o Dia da Consciência Negra ou o Dia dos Povos Indígenas. Essa abordagem exige uma mudança mais ampla na forma como a escola compreende o seu papel, garantindo que essas referências façam parte do cotidiano de maneira contínua e estruturada.
Identidade, acolhimento e cultura
5: Como essas práticas contribuem para identidade e pertencimento?
Ao valorizar histórias, territórios e vivências, as crianças passam a se reconhecer positivamente. Não se trata apenas de falar da dor, mas, também, das contribuições culturais, científicas e históricas, fortalecendo autoestima e identidade.
6: Qual o papel da literatura infantil afrocentrada?
Ela ajuda a desconstruir estereótipos e construir referências positivas. Permite que as crianças se vejam nas histórias, se identifiquem com personagens e ressignifiquem a forma como percebem a si mesmas, os outros e os seus territórios.
Adversidades e formação docente
7: Quais são os principais desafios na implementação?
Os obstáculos incluem condições precárias de trabalho, baixos salários, falta de estabilidade, dificuldades na formação inicial e continuada, além do desconhecimento de leis importantes. Também há o racismo estrutural e resistência em temas como religiosidade de matriz africana.
8: Qual é o papel da formação docente?
A formação é essencial. Não basta oferecer materiais, é preciso preparar professores para compreender o racismo, suas consequências e atuar no seu enfrentamento.
Além disso, ela deve ser contínua e estruturada. Não se pode limitar a ações isoladas, como palestras. Esse ensinamento precisa garantir um processo formativo permanente que qualifique a prática pedagógica.
Escola, realidades locais e impactos
9: Como a integração entre escola, famílias e comunidades fortalece essas práticas?
Especialmente em territórios quilombolas, essa integração é estruturante. Não existe educação escolar quilombola sem a participação da comunidade, sem a valorização do território e sem a defesa de condições dignas de vida. A escola precisa se reconhecer como parte desse território, e não como algo separado dele.
Isso implica garantir a participação ativa das famílias e das comunidades nos processos educativos e na gestão escolar. Não se trata de ações pontuais ou atividades isoladas, mas de construir uma relação contínua, em que a comunidade não apenas esteja presente, mas seja ouvida e participe das decisões. Quando a escola se entende como escola-território, ela passa a refletir as vivências, os saberes e os pertencimentos das pessoas que fazem parte daquele espaço.
10: Quais impactos foram observados?
Os resultados incluem a continuidade das práticas mesmo após o curso, a disseminação das experiências entre professores e a ampliação da discussão em outros espaços. O e-book oferece exemplos reais e acessíveis, incentivando mudanças concretas no cotidiano escolar.
Acesse o e-book completo
Se aprofunde no tema e leia o e-book Educação Infantil Afrocentrada, que reúne experiências práticas de professores e caminhos possíveis para aplicar no seu contexto.