Postado em: 20 julho, 2026

Férias escolares também revelam as desigualdades raciais na educação brasileira

Jovem negra com a mão levantada em sala de aula

Políticas públicas podem reduzir os impactos do racismo no acesso a experiências educativas fora da escola


O mês de julho marca, tradicionalmente, as férias escolares do meio do ano no Brasil. Mais do que uma pausa no calendário letivo, esse período também evidencia como as desigualdades raciais se reproduzem fora da escola. Enquanto parte das crianças e adolescentes amplia seu repertório por meio de viagens, atividades culturais, esportivas e educativas, outras enfrentam barreiras históricas de acesso a essas oportunidades. Por isso, é fundamental discutir de que forma políticas públicas, articuladas a iniciativas comunitárias, podem ampliar o acesso a experiências educativas e garantir o direito à formação integral também durante as férias.

Uma pesquisa do Itaú Social, em parceria com o Plano CDE, revela o tamanho da desigualdade. De acordo com os dados, até o ensino fundamental, crianças de famílias com maior poder aquisitivo podem acumular mais de 7 mil horas de aprendizado fora da sala de aula. Desse tempo, mais de 2 mil horas correspondem apenas ao período de férias.

As pessoas de maior renda, por exemplo, investem em colônias de férias, cursos, viagens e programações culturais. Ao mesmo tempo, as que vivem em condições de vulnerabilidade enfrentam a falta de recursos, de tempo e a escassez de opções de lazer gratuitas.

Já é de amplo conhecimento dos profissionais de educação que uma formação bem-sucedida não contempla apenas as atividades escolares previstas no currículo regular. É preciso ir além, com ações que envolvam a formação cultural, a prática de esportes e o desenvolvimento socioemocional. É nesse aspecto que, mais uma vez, o racismo vivenciado nas férias reforça o seu poder de exclusão.

Desenvolvimento cognitivo, social e emocional

A falta de complemento apropriado às atividades realizadas em sala de aula, além de revelar as desigualdades sociais e raciais, impacta diretamente no progresso cognitivo, social e emocional de crianças e adolescentes. As atividades disponibilizadas fora da grade curricular tradicional fazem parte do conceito de educação integral, previsto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que guia a construção de trilhas de aprendizagem por instituições de ensino em todo o Brasil.

A ausência de interação social ampliada, de desenvolvimento de práticas esportivas e de acesso a produtos culturais que contribuem para o desenvolvimento humano de pessoas em fase de formação educacional e intelectual escancaram o abismo que a sociedade impõe entre quem tem condições de consumir esses produtos e quem precisa do auxílio do estado na [garantia do acesso a esses recursos.   

Passe aos espaço gratuitos

Apesar da necessidade de áreas urbanas acessíveis, que ofereçam programação gratuita para ampliar o acesso às oportunidades educativas e culturais, muitas dessas iniciativas estão concentradas nas regiões mais ricas das grandes cidades brasileiras, longe dos territórios onde vivem populações historicamente excluídas, entre elas crianças e adolescentes negros, indígenas, quilombolas e de famílias de baixa renda.
A ausência de equipamentos públicos gratuitos em localidades periféricas é uma realidade, mas, mesmo quando eles existem, especialistas apontam a diferença de tratamento, dispensada pelos próprios agentes do Estado: em geral, a manutenção e o estado de conservação difere bastante, com benefício direcionado às instalações das áreas mais privilegiadas dos municípios.

A escassez de parques e de outras opções gratuitas de lazer faz com que moradores de bairros menos favorecidos tenham poucas alternativas de convivência.  Um outro estudo conduzido pelo Itaú Social, desta vez com a Universidade de Cambridge, atesta que práticas artísticas e esportivas realizadas dentro e fora do ambiente escolar têm impacto direto no desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Não contar com essa oportunidade, portanto, configura mais um episódio de exclusão sócio racial.

Políticas públicas contra o racismo nas férias

É dever do Estado garantir o acesso da população a opções culturais, de lazer e esporte a fim de evitar a exclusão na infância, especialmente, de brasileiros que não têm condições financeiras de arcar com os custos de um complemento fora do ambiente escolar. E, nesse contexto, é notório que a população negra, indígena e quilombola é a que mais sofre com essa realidade, por ocupar a maior parte desses espaços em situação de vulnerabilidade.

Por isso, é preciso que o poder público desenhe políticas que garantam o acolhimento desse população a benefícios que já são desfrutados por grupos privilegiados. Esses programas podem se traduzir em espaços que estimulem a prática de esportes nas periferias, apresentem programações culturais alinhadas à realidade da população local e criem mais oportunidades de interação social entre os moradores. Juntas, essas ações podem contribuir para o combate ao racismo nas férias.

Nesse período, é essencial refletir que o racismo impacta a população negra, indígena e quilombola de muitas formas diferentes. Estar excluída das atividades complementares que contribuem na formação educacional tem impacto determinante na vida dessas crianças e adolescentes.

Por isso, é urgente que o poder público assuma a sua responsabilidade e garanta o acesso à programas que auxiliem no desenvolvimento de todas as pessoas em atividades extra-classe. A escola é fundamental, mas é preciso mais. Julho também é um período para se pensar em educação e na eliminação do racismo nas férias.

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.