Postado em: 1 abril, 2025

Midiã Noelle lança obra sobre comunicação antirracista

Livro Midiã Noelle

De acordo com Midiã, o livro não é uma receita pronta, mas um aliado para o entendimento sobre práticas de comunicação libertadoras


A jornalista baiana Midiã Noelle foi consultora do Projeto SETA, redatora do Plano pela Igualdade Racial do governo federal, e possui uma trajetória com passagens por agências da ONU e relevantes organizações da sociedade civil. A comunicadora estreia no mercado editorial com o livro “Comunicação antirracista: Um guia para se comunicar com todas as pessoas, em todos os lugares”. Lançado pela Editora Planeta, a obra está disponível para venda através do site: amazon.com.br/dp/8542231929.

Tivemos uma conversa com a autora a fim de entender o que os leitores podem esperar da publicação. Confira a seguir:

Quando surgiu a ideia de escrever o livro e o que te motivou?

Midiã: Vinha pensando na possibilidade de produzir um livro há uns quatro ou cinco anos. Fui incentivada pela Bárbara Carini, autora do Conselheiro Educador Antirracista, vencedora do Prêmio do Abutre para Editora Planeta, para escrevê-lo. Além dessa motivação, tive a experiência, com a construção do Plano de Comunicação pela igualdade racial, de olhar mais para o segmento da comunicação governamental e pública. Unindo essa vivência a outras da minha trajetória do jornalismo – da redação, do movimento social – me senti confortável e segura para construir esse documento que chega à sociedade em formato de livro.

O que os leitores podem esperar da obra?

Midiã: Eles terão acesso a um livro que não é uma forma usual de guia, mas, uma publicação que conta histórias da vida como se fosse uma conversa que proporciona reflexões. Nele, trago experiências que geram, também, emoção e conexão para as pessoas, de fato, compreenderem o tema. Acredito que os leitores podem esperar, a partir dessa obra, um entendimento sobre a importância do reconhecimento da dignidade humana. Além disso, eles terão uma leitura com afeto, que gera um processo de reconhecimento e semelhança e que vai tocá-los de uma forma não muito tradicional. 

E o que eles terão de aprendizado?

Midiã: Como aprendizado, os leitores aprenderão a reconhecer, no dia a dia, os processos de luta para a construção da humanidade e da população negra. E, ainda, de se colocar nesse lugar de agente de transformação a partir da comunicação. Além de se entender dentro desse cenário, seja uma pessoa negra ou não.

Como você avalia a postura da população diante desse tema? Já tivemos avanços? Como podemos melhorar?

Midiã: Acredito que a população ainda não consegue pensar a comunicação dentro de um olhar mais fragmentado, pois ainda enxerga apenas como mídias sociais e TV, por exemplo, e não se coloca nesse lugar enquanto uma pessoa que é agente da comunicação. Então, a sociedade brasileira pode esperar e utilizar esse livro, também, para entender, a partir de uma lógica histórica, como que a comunicação não é só uma ferramenta, mas, sim, algo que está presente em tudo e que dita o que acontece, ou não, inclusive, na história.  

Quais mudanças podemos fazer no nosso cotidiano para termos uma comunicação antirracista?

Midiã: O enfrentamento ao racismo se baseia no respeito à historiografia africana e afrodiaspórica, e utiliza elementos dos campos da estética, semiótica e outras linguagens e modos de produção de sentidos para a construção, desconstrução e/ou reconstrução das percepções sobre pessoas negras. Desse modo, invariavelmente, a luta antirracista perpassa, também, a comunicação. Portanto, esse livro é uma obra basilar sobre o tema que não oferece uma receita pronta, mas um ponto de referência para pessoas brancas, negras, indígenas, amarelas, de diferentes idades, gêneros, territórios, classes, e que têm em comum o interesse por ser antirracista, servindo como um instrumento para a articulação de práticas comunicacionais despretensiosas, mas suficientemente libertadoras.

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.