Postado em: 12 junho, 2025

“O que me salvou foi a força do movimento negro” – SETA entrevista Deputada Dandara Tonantzin

Deputada Dandara Tonantzin tem atuação importante na luta pela implementão da educação antirracista

Em entrevista exclusiva, parlamentar fala sobre sua atuação no segmento da educação antirracista e a importância do movimento negro

Eleita em 2022 pelo Partido dos Trabalhadores, em Minas Gerais (PT-MG), a Deputada Estadual Dandara Tonantzin, vem trabalhando na Câmara dos Deputados pela plena implementação das Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, respectivamente, no currículo escolar. Além disso, a parlamentar tem uma importante atuação na inclusão de emendas voltadas para a educação antirracista no novo Plano de Educação Nacional (PNE). 

Em abril deste ano, a deputada foi representante da Bancada Negra da Câmara no “IV Fórum de Afrodescendentes da ONU”, onde também compôs a mesa do evento paralelo ao Fórum realizado pelo SETA “Educação Antirracista e o Papel das Políticas Públicas: Caminhos para a Equidade Racial”, que aconteceu em Nova Iorque. Dandara Tonantzin é pedagoga e mestre em Educação, e tem uma longa trajetória como ativista. Dentro da câmara, ela é membro da Comissão de Educação e presidente da Subcomissão Permanente de Educação Inclusiva e Ações Afirmativas. Em entrevista ao SETA, a parlamentar falou sobre sua carreira na política e sobre as pautas que defende. Confira a seguir: 

  • Quando e como surgiu a vontade de ser uma parlamentar?

Dandara:  Não nasci querendo ser parlamentar. Na verdade, por muito tempo,  nem achava que isso era possível. Crescer sendo uma menina preta, periférica, é crescer sem referências. Mas desde cedo fui  levada pela vida para dentro dos espaços de luta. Comecei no movimento estudantil e sempre tive algo dentro de mim dizendo: “É aqui que você tem que estar. É aqui que você pode fazer a diferença”. Porém,  eu ainda não me via como uma mulher na política institucional. Parecia distante demais.

Até que, em 2017, aconteceu algo que me marcou profundamente. Sofri um violento ataque racista, e esse crime foi arquivado sob a justificativa do promotor de que “o racismo estava na minha cabeça“. Contudo, esse também foi um ponto de virada. Denunciei forte nas redes e o caso teve uma repercussão nacional, o que acabou acelerando a ideia de me candidatar. 

Concluí o mestrado e coloquei meu nome à disposição de um projeto coletivo de luta. Fui eleita a vereadora mais votada em Uberlândia, em 2020, na esteira da luta contra o racismo e do combate ao governo negacionista de Bolsonaro na pandemia. E não foi só uma vitória minha. Foi a vitória da nossa história, da nossa resistência, da nossa ancestralidade. Porque toda vez que uma de nós rompe a cerca, abre caminho para que outras venham também. 

  • Como foi sua entrada para a Câmara dos Deputados?

Dandara: Sabe quando a gente entra num lugar e sente o peso da história nas costas? Foi assim que eu me senti no meu primeiro dia na Câmara dos Deputados. Pensei na menina que eu fui — aquela que organizava grêmio na escola, que ocupava reitoria, que tomava microfone em protesto, que teve o turbante arrancado da cabeça por ousar ser quem era. Aquela menina agora era deputada federal. Não entrei na política por vaidade. Entrei porque nós também temos o direito de sonhar, de legislar, de transformar. Aquele momento foi o começo de uma nova página da nossa história, porque agora, Minas Gerais tinha uma mulher preta e periférica no Congresso Nacional. 

  • E como é trabalhar em prol da educação antirracista e apoiar movimentos que buscam a implementação efetiva da Lei 10.639?

Dandara: Trabalhar pela educação antirracista não é algo que começou com o meu mandato. É uma luta que faz parte da minha trajetória, da minha história de vida. Entre 2014 e 2018, tive a honra de ser Conselheira Nacional de Promoção da Igualdade Racial, no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR). Ali, pude viver de perto o quanto a política pública precisa ouvir quem está na base. Foi nesse período que aprofundei ainda mais meu compromisso com a implementação da Lei 10.639 junto ao movimento negro. 

Para mim, não se trata só de uma lei — trata-se de memória, de reparação e direito de futuro. Lutar pela implementação dela significa dialogar com os movimentos que já fazem esse trabalho há décadas e garantir que tenham apoio, visibilidade e recursos. Defendo que recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Nacional da Educação (FNDE), que são repassados a estados e municípios para execução da maioria das ações e programas da Educação Básica, estejam vinculados ao cumprimento das normas 10.639/2003 e 11.645/2008. Hoje, mais de 70% dos municípios não aplicam as leis. Isso precisa mudar.

  • O que lhe motivou a defender a pauta da educação antirracista?

Dandara: Minha luta pela educação antirracista começa dentro de casa. Minha mãe me ensinou duas coisas: que educação é um direito, não um favor. E que ser preta e estudar é, por si só, um ato de resistência. Mas, também aprendi cedo que essa educação, do jeito que estava colocada, não foi feita pra gente. Nunca me vi nos livros. Nunca ouvi falar de Zumbi, Dandara, Carolina Maria de Jesus ou Milton Santos na escola. O que me salvou foi a força do movimento negro. Em Uberlândia, tive o privilégio de conviver com mulheres gigantes, como Conceição Leal — uma referência viva na luta por uma educação que respeite nossa história e nossa humanidade. Mulheres como ela abriram caminhos, plantaram sementes. Eu sou fruto dessas sementes.

  • Falando da Lei, como você avalia a implementação dessa norma no ensino brasileiro? 

Dandara: A Lei 10.639 é uma conquista histórica do movimento negro, mas, que ainda é tratada como algo “optativo”. Como se ensinar a história do povo negro fosse um favor, e não uma obrigação do Estado. Em muitas escolas, ela só aparece em datas simbólicas, como 20 de novembro. Inclusive, o 20 de novembro não era nem considerado feriado. No dia a dia das escolas públicas falta formação para professores, material didático e vontade política. E o mais grave: falta a compreensão de que essa lei é um instrumento de combate ao racismo estrutural desde a base. Reconhecer as lutas históricas e atuais da população negra é fundamental para avançarmos em direção a uma democracia verdadeiramente inclusiva, de todos. 

  • Na sua avaliação, o que impede que ela seja efetivamente implementada?

Dandara: É o racismo institucional. É a naturalização da ausência do povo negro nos currículos, nas salas de aula, nas decisões pedagógicas. Também falta investimento: professores não são preparados para trabalhar esse conteúdo, não recebem suporte, não têm acesso a materiais que valorizem a cultura afro-brasileira. Além disso, há uma resistência ideológica de setores conservadores que tentam sabotar qualquer avanço na educação crítica e inclusiva. Ou seja, a falta de prioridade orçamentária e o avanço do negacionismo se somam, atrasando uma transformação que é urgente.

  • Ausência do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, atrapalha no combate ao racismo em nosso país?

Dandara: Quando apagamos a história de um povo,  também apagamos o direito dele de se reconhecer, de se orgulhar, de ocupar espaços com dignidade.  Isso afeta a autoestima, a identidade e reforça o racismo como estrutura. Ao mesmo tempo, crianças brancas crescem sem entender os impactos da escravidão, sem refletir sobre os privilégios herdados e sem desenvolver empatia. Ou seja, o silêncio sobre a nossa história alimenta o preconceito todos os dias.

  • Como o novo Plano Nacional de Educação pode ser uma ferramenta para esse combate real ao racismo? 

Dandara: O novo PNE precisa colocar a educação antirracista no centro das metas e estratégias. Isso significa incluir indicadores claros sobre a aplicação da Lei 10.639, prever formação continuada para docentes, estimular pesquisas e produção de conteúdo sobre a história negra, e garantir orçamento para isso. Não podemos mais aceitar um plano nacional que trate a pauta racial como algo periférico. Nossa atuação será para garantir que essas formulações sejam indissociáveis das concepções de uma Educação verdadeiramente antirracista, como pré-requisito para que o país finalmente supere um déficit civilizatório cuja origem não é outra senão o flagelo de 300 anos de escravidão. 

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.