Postado em: 13 agosto, 2026

O racismo religioso nas salas de aula do Brasil

O racismo religioso nas escolas é reflexo da ausência do estudo acerca da cultura afro-brasileira, indígena e quilombolas

Os casos de racismo religioso dentro de sala de aula prejudicam, diretamente, a vida de alunos de religiões de matriz africana. Uma pesquisa realizada pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (Niej), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), expôs que, dentro dos estabelecimentos de ensino, jovens praticantes de umbanda e candomblé preferem não revelar sua fé por medo de exclusão e retaliação. 

Essa violência não ocorre exclusivamente por meios físicos, como apelidos e agressões, mas também se relaciona a desafios estruturais e institucionais que atravessam o ambiente escolar e a sociedade como um todo. Seu enfrentamento exige uma responsabilidade compartilhada entre poder público, redes de ensino, instituições, profissionais da educação, comunidades escolares e sociedade.

Nesse contexto, a educação para as relações étnico-raciais é uma ferramenta fundamental visando promover o respeito à diversidade e, ainda, combater diferentes formas de racismo e discriminação. Desde 2003, a Lei nº 10.639 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e, em 2008, a Lei nº 11.645 ampliou essa determinação, incluindo a História e Cultura Indígena nos currículos escolares. 

No entanto, sua efetiva implementação envolve desafios que vão além da disponibilidade de recursos financeiros, passando pela formação inicial e continuada dos profissionais da educação, pelo conhecimento e planejamento orçamentário, pela construção de metodologias e práticas pedagógicas adequadas, pela disponibilidade de materiais didáticos, pela incorporação da temática aos currículos e projetos político-pedagógicos, pelo compromisso das diferentes instâncias de gestão e pela existência de mecanismos de acompanhamento e avaliação das políticas de educação para as relações étnico-raciais. 

”Não basta criar legislações que obriguem o estudo dessas modalidades se não há a devida capacitação nos ambientes escolares. É necessário, para além disso, reestruturar os ecossistemas de maneira que eduquem corretamente os jovens acerca da diversidade cultural presente no Brasil, contribuindo para um ambiente de livre expressão. A educação antirracista tem o viés da libertação”, explica Ana Paula Brandão, co-diretora da ActionAid e Gestora do Projeto SETA.

Os desafios estruturais e institucionais para a abordagem da diversidade cultural nas escolas 

Antes de tudo, para que haja uma grade curricular diversa nas redes de educação, é necessário pôr em prática medidas que colaborem com o conhecimento do corpo docente acerca desse tema. 

Então, diretores, coordenadores pedagógicos, professores e outros componentes extra-classe também precisam estar preparados e contar com formação, ferramentas e condições adequadas para incorporar a perspectiva antirracista às práticas pedagógicas e ao cotidiano escola.r 

Segundo pesquisa dos Institutos Alana e Geledés, em 2023, 71% das secretarias de educação nacionais não possuíam ou apenas promoviam esporadicamente programas relacionados à cultura afro-brasileira, indígena e quilombola. 

Assim, os desafios para a efetiva implementação dessas legislações reforçam a importância de iniciativas como o o Território Educador na qualificação de educadores nessas temáticas. O curso ofertado pela Secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro (GERER) é uma parceria entre o SETA e o município, com o objetivo de valorizar  uma educação igualitária, disponibilizando as ferramentas pedagógicas necessárias. 

Casos de perseguição religiosa dentro das redes de ensino

As redes de ensino muitas vezes são palco de violência contra a fé alheia. No Mato Grosso, a Secretária de Educação afirma que os incidentes de racismo ou intolerância religiosa aumentaram 10,3% de 2023 para 2024, alcançando 39,8% em 258 unidades. 

Por exemplo, entre essas ocorrências está a jovem de 13 anos que quase foi incendiada por seus colegas de classe. Os estudantes a consideravam uma “bruxa” por praticar religião de matriz africana. 

Segundo a mãe, a menina foi vítima de bullying por pelo menos três anos consecutivos e, em 2024, a perseguição chegou ao seu ápice, com a tentativa de queimá-la viva. 

Outra situação que teve grande repercussão aconteceu em São Paulo, em 2025. Na época, 12 policiais militares entraram no EMEI Antônio Bento, Escola Municipal de Educação Infantil, após o pai de uma aluna denunciar a instituição por uma atividade sobre a cultura afro-brasileira. Dentre os agentes, um portava fuzil. 

Contudo, apesar da corporação considerar a atuação dentro do protocolo, a medida foi considerada  desproporcional para o caso. O conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Roberto Uchôa, afirmou ao G1 que o episódio pode ser classificado como abuso de poder.

Como combater o racismo religioso nas escolas?

Antes de mais nada, as instituições de ensino têm a responsabilidade de ser um dos pilares na formação dos cidadãos. Por isso, é essencial que os órgãos e agentes da educação estejam engajados em ações de conscientização antirracista em todas as esferas, incluindo contra o racismo religioso. 

Logo, a elaboração de políticas públicas e legislações que combatam a violência contra populações minorizadas em sala de aula é extremamente necessária. Ao mesmo tempo, é imprescindível o investimento na qualificação dos profissionais sobre a cultura africana, indígena e quilombola.

O enfrentamento ao racismo nas escolas, portanto, não pode depender apenas da iniciativa individual de educadores e gestores, mas exige uma atuação institucional, contínua e compartilhada. Nesse caminho, os protocolos e orientações elaborados pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC) contribuem para orientar as redes e comunidades escolares na prevenção, identificação, acolhimento, encaminhamento e enfrentamento de situações de racismo. Mais do que conscientizar, é necessário garantir que os diferentes atores da educação estejam preparados, amparados e disponham de instrumentos para transformar os princípios da educação antirracista em práticas efetivas no cotidiano escolar. 

 

Voltar

Central de Ajuda

Reunimos em categorias as respostas para as suas principais dúvidas. É só clicar no assunto que procura para filtrar as perguntas já respondidas.

Meninas e jovens mulheres negras, indígenas e quilombolas transformam as comunidades e a cultura escolar para que sejam antirracistas e equitativas. Entendemos, portanto, que o lugar da menina negra, indígena e quilombola é na escola. Assim, vamos atuar intencionalmente para construir um sistema educativo transformador que promova a dignidade na escola.

Educadoras(es) formadas(os) por meio de programas de capacitação inicial e continuada e apoiadas(os) com recursos educacionais e orientações de gestoras(es) de educação. Ademais, têm autonomia para incorporar práticas educativas antirracistas e não sexistas pelo reconhecimento institucional da importância dessas temáticas, com suporte material acessível e de qualidade.

Assine nossa newsletter e fique por dentro de nossas atividades e oportunidades de ações conjuntas.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.