Postado em: 10 abril, 2026

Dia das Escolas de Samba: enredos de carnaval reforçam educação antirracista

Ginásio Educacional Tecnológico Lins de Vasconcelos, localizado no Bairro do Lins, Zona Norte do Rio, os sambas-enredo ocupam um lugar central no processo de ensino-aprendizagem.

No Dia das Escolas de Samba, conheça práticas pedagógicas desenvolvidas em sala de aula

O Carnaval do Rio de Janeiro vai além da festa e do espetáculo na Marquês de Sapucaí. Em 2026, os sambas-enredo das escolas evidenciaram narrativas que dialogaram diretamente com a educação antirracista, valorizando histórias, culturas e saberes historicamente invisibilizados, especialmente, das populações negras e indígenas. 

No Dia das Escolas de Samba, comemorado em 11 de abril, exemplificamos como essas canções, ecoadas na avenida, contribuem para conectar estudantes às histórias que contribuíram e ainda colaboram com a construção do Brasil.

Dia das Escolas de Samba – enredos como ferramenta pedagógica

No Ginásio Educacional Tecnológico Lins de Vasconcelos, localizado no Bairro do Lins, Zona Norte do Rio, os sambas-enredo ocupam um lugar central no processo de ensino-aprendizagem. Durante o ano, os educadores trabalham as músicas de carnaval nas aulas, conectando cultura popular e conteúdo curricular.

“Os alunos entram em contato com temáticas históricas, sociais, políticas e culturais, fundamentais para o desenvolvimento de suas identidades e a formação como cidadãos conscientes. As escolas de samba, ao longo da história, abordam questões essenciais para grupos marginalizados, valorizando, sobretudo, as culturas afro-brasileiras e indígenas”, comenta o professor Júlio Fortunato. 

O educador destaca, ainda, a relevância da presença das agremiações nos próprios territórios como fortalecedora dessa conexão, pois muitos alunos já desfilaram ou conhecem quem participa da iniciativa, ampliando o engajamento em sala.


Educação antirracista na prática

Os sambas-enredo se mostram potentes ferramentas interdisciplinares, permitindo abordar conteúdos de história, literatura e artes a partir de perspectivas mais plurais, rompendo com visões eurocêntricas ainda presentes no currículo escolar.

A utilização dessas canções durante as aulas também fortalece a implementação das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, responsáveis por tornar obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena. Para o professor, essa conexão é direta, pois os sambas trazem narrativas que, muitas vezes, não aparecem com destaque no conteúdo programático, como a resistência negra, as matrizes africanas e as culturas indígenas. Dessa forma, amplia o repertório dos estudantes e dá visibilidade a essas histórias. 

“O trabalho com os sambas enriquece o repertório linguístico, expande o conhecimento sobre a origem das palavras e valoriza expressões culturais muitas vezes pouco difundidas”, explica o professor.

Entre os exemplos trabalhados em sala estão o da Unidos de Vila Isabel, sobre Heitor dos Prazeres, valorizando a trajetória de um importante artista popular brasileiro. E, ainda,  clássicos como “Kizomba”, canção celebrativa sobre as tradições africanas e o enredo “Hutukara”, da Acadêmicos do Salgueiro, abordando a cultura indígena e ampliando o debate sobre diversidade no país.

Programa prepara educadores para abordar a educação antirracista

O Município do Rio de Janeiro, por meio da Gerência de Relações Étnico-raciais (GERER), da Secretaria Municipal de Educação, disponibiliza o curso Território Educador. São formações voltadas a educadores da rede com a finalidade de promover a equidade racial na educação. Elas disponibilizam ferramentas a fim de  construir práticas pedagógicas alinhadas à equidade racial e ao reconhecimento do Currículo Carioca como um instrumento de combate ao racismo e promoção da inclusão. O Território Educador é uma parceria da GERER com o Projeto SETA, e o GET Lins de Vasconcelos é uma das instituições que participou das turmas de capacitação. 

“Essa formação é uma estratégia de promoção da equidade racial e do fortalecimento de políticas públicas da rede municipal de ensino, à medida que amplia o espaço de diálogo entre o nível central, as coordenadorias regionais de educação e as unidades escolares. A partir do curso, as iniciativas de implementação de Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) nas escolas públicas são fortalecidas com a atuação dos professores capacitados”, destaca Karoline Santos, Analista de Educação do SETA.

Mais de 50 mil alunos são beneficiados com a formação

Estruturado em dez módulos, o Programa Território Educador aborda, com o auxílio de vídeos e materiais complementares de estudos, temas como: “O fomento institucional para a implementação de ações no cotidiano das unidades escolares”, “Conceitos básicos para abordagem das relações étnico-raciais: raça e racismos, ideologia, representatividade, identidade, diversidade cultural e letramento” e “Os impactos do racismo sobre as populações negra e indígena”. As primeiras duas turmas do programa, em 2024 e 2025, formaram cerca de 1.300 profissionais da educação do município carioca e beneficiaram, diretamente, mais de 50 mil alunos da rede. 

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.