Postado em: 10 setembro, 2025

Identidade ancestral e resistência: saiba mais sobre os grafismos indígenas

Grafismos indígenas. Foto: Abraão Mayoruna

Rosimere Arapaço, vice-coordenadora da Makira-E’ta, uma das organizações do Projeto SETA, fala sobre os grafismos indígenas e o significado que carregam

 

Símbolo de identidade, memória e expressão cultural, os grafismos indígenas carregam histórias e pertencimento étnico. As pinturas tradicionais são caracterizadas por linhas e formas geométricas, que podem ser aplicadas em diferentes objetos e, também, usada como pintura corporal. 

Em entrevista ao SETA, Rosimere Arapaço, Vice-coordenadora da Makira-E’ta – Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas, uma das organizações que compõem a aliança do Projeto SETA, falou sobre o significado que os traços carregam e, também, o racismo enfrentado pela população indígena. Confira. 

1: Qual o significado dos grafismos corporais para os povos indígenas?

Os grafismos e as pinturas corporais marcam a identidade de cada povo indígena existente no território nacional. É uma forma de expressão cultural que não apenas decora o corpo, mas, também, simboliza a identidade e a resistência de cada um deles. 

Os desenhos corporais são feitos de tintas naturais extraídas de plantas, cascas, raízes, folhas ou sementes, e podem durar de 15 a 20 dias. Cada traço carrega um significado único. A arte corporal é uma parte essencial da identidade pessoal e coletiva, utilizada em rituais, celebrações e no trabalho. 

2: Na sua visão, como os grafismos indígenas são vistos na sociedade? 

Algumas décadas atrás, povos indígenas de algumas regiões haviam deixado de usar os  grafismos e até os adereços corporais por conta da política de ditadura militar através da chamada “aculturação”. 

Hoje, o uso dos adornos, pinturas e grafismos corporais evidenciam a existência dos povos indígenas nos seus territórios. Pinturas essas que são usadas no trabalho para proteção dos raios solares, utilizadas para rituais e festas de cada povo.

Atualmente, usar um cocar, pinturas e grafismos no corpo é símbolo de reafirmação da identidade e da existência de cada povo, que já estava presente aqui muitas décadas antes da chegada dos colonizadores nas Terras da Pindorama. 

A sociedade não consegue entender os valores culturais dos povos indígenas. Olha com muito preconceito e racismo. Os povos indígenas são e serão indígenas independentemente de onde estiverem, seja no território, nos centros urbanos e nas periferias das grandes cidades. Porque não foram os povos indígenas que andaram atrás das grandes cidades, pelo contrário, as cidades que foram e ainda são construídas nos territórios indígenas. 

3: Com base nas notícias de racismo sofrido por dois jovens no ambiente escolar, para você, por que essas situações ainda estão presentes, sobretudo, em instituições de ensino? 

Vários casos semelhantes acontecem nos ambientes escolares. O número de alunos indígenas que sofre racismo nos locais de ensino só aumenta, e isso ocorre por falta de conscientização, preparo dos docentes e diretores das escolas, desconhecimento ou, simplesmente, por incitação à violência contra os alunos indígenas.

4: De que forma a desvalorização dos grafismos revela o racismo estrutural que os povos indígenas enfrentam diariamente?  

Principalmente, quando os indígenas são motivo de ridicularização dentro de instituições públicas. Sejam escolas, hospitais, cartórios ou até mesmo nas delegacias no momento de registrar ocorrência contra alguma violência sofrida. Quando quem deveria proteger comete crime

5: Quais são os impactos psicológicos e sociais que essas crianças, vítimas de racismo por conta do grafismo e, também, pela sua origem podem sofrer? 

Os impactos psicológicos são os mais graves e mais marcantes para a vida de uma criança. Ela vai crescer com medo da sociedade não indígena. Isolamento. Desistência da escola. Com isso, além dela,  toda a família sofre.

6: Como a educação antirracista pode contribuir no combate ao racismo sofrido pelos povos indígenas? 

A educação antirracista necessita ser trabalhada dentro das escolas e nos setores públicos. Porque os ambientes escolares precisam ser espaços seguros para acolher qualquer pessoa. Todas elas com sua identidade cultural.

7: Quais ações as instituições de ensino podem assumir a fim de promover a mudança desse triste cenário? 

Antes de tudo, implementar políticas de respeito. Ter uma educação crítica que contemple a diversidade. Para isso, é essencial preparar os professores para lidar com questões científicas, étnicas, raciais e culturais. Além disso, os diretores e professores necessitam saber reconhecer as situações de preconceito e racismo e intervir pedagogicamente diante dessas situações.

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.