Postado em: 5 fevereiro, 2026

Pesquisadora de Bristol realiza estudo sobre Educação Quilombola em Alto Alegre, no Ceará

estudo sobre Educação Quilombola em Alto Alegre, no Ceará estudo sobre Educação Quilombola em Alto Alegre, no Ceará

Um Olhar Global sobre a Educação Antirracista 

Por Jáfia Naftali Câmara, Doutora em Educação, pesquisadora na Universidade de Bristol (Inglaterra) e representante global do Projeto SETA 

Nossa missão de pesquisa e advocacia global parte de uma colaboração entre a Universidade de Bristol,  ActionAid International e o Projeto SETA, um coletivo de iniciativas antirracistas no Brasil, que tem como propósito fundamental promover a educação antirracista em escolas de todo o mundo. Os esforços visam centralizar raça, racismo e educação antirracista nos quadros de políticas e práticas nacionais (no ensino público brasileiro) e internacionais. 

Como parte desse trabalho global, entendemos a necessidade de ir além da teoria para focar em iniciativas práticas que estão fazendo a diferença em escolas públicas e comunidades. Mas, como se implementa uma educação antirracista? Até o momento, identificamos 130 iniciativas através da nossa pesquisa, e foram realizadas entrevistas com 27 indivíduos e coletivos envolvidos com educação antirracista em 11 países: Brasil, Austrália, Bangladesh, Índia, Líbano, México, Aotearoa-Nova Zelândia, Senegal, África do Sul, Reino Unido e Estados Unidos. 

Além das entrevistas e a fim de entender melhor como profissionais da educação combatem o racismo em suas escolas, salas de aula e comunidades, lançamos estudos de caso para mergulhar fundo em práticas específicas, para aprender e capturar as iniciativas antirracistas que estão acontecendo pelo mundo.  Eles não só oferecem a possibilidade de explorar o que está acontecendo, mas, também, o porquê e como. No Brasil, conduzimos um estudo focando na Educação Escolar Quilombola como prática de educação antirracista. Intitulado “Pedagogia de Quilombo: Uma educação para além dos muros” (2025), o documento  foi liderado pela Professora Marleide Nascimento, em parceria com a Conaq e o Projeto SETA, no Quilombo de Alto Alegre, município de Horizonte, Ceará. Foram oferecidos cursos de formação para educadores, visando promover uma educação antirracista, amplificar conhecimentos quilombolas e ofertar práticas pedagógicas territorializadas e contracoloniais.

 

Confira a entrevista realizada, durante a visita ao território, com a Professora Marleide Nascimento, moradora do Quilombo. 

  • Marleide, nos fale um pouco mais sobre você, a Conaq e o seu envolvimento com a educação quilombola.

Eu sou quilombola, professora, cotista, filha de agricultores, que sempre viu a educação como um meio de mudar a realidade das vidas dos seus. Sou escritora, poetisa, contadora de histórias, educadora antirracista, pedagoga, mestra em Humanidades e ativista do movimento quilombola no Ceará e em âmbito nacional.

Sou natural da comunidade quilombola de Alto Alegre, no município de Horizonte, região metropolitana de Fortaleza. Cresci em um ambiente marcado pela ancestralidade e pela vida comunitária, tive uma infância difícil: aos 12 anos sofri violência, fui expulsa de casa e enviada para trabalhar e morar em uma casa de família na capital, porém, com uma condição fundamental que era poder continuar estudando. Fui cotista pelo Prouni para cursar Marketing, e concluí  mesmo que, por vezes, precisasse levar meu filho ainda pequeno para a sala de aula.

  • De que maneira a educação quilombola contribui para reforçar a identidade negra e o sentimento de pertencimento entre crianças e jovens?

A educação quilombola não é apenas uma forma de levar conteúdo para dentro da escola. Ela é, antes de tudo, um ato de resistência e de reafirmação de quem somos. Quando a criança quilombola entra numa sala de aula e se reconhece nos livros, nas histórias, nas músicas, nos símbolos e nas práticas educativas, ela entende que a sua origem não é um problema, mas, sim, uma força ancestral. Durante muito tempo, nós, negros e quilombolas, fomos ensinados a nos olhar a partir do olhar do outro, o olhar da negação. A educação quilombola faz o movimento contrário: ela valoriza nossas memórias, territórios e saberes, e coloca os nossos ancestrais como sujeitos de conhecimento. Isso gera orgulho, fortalece o pertencimento e evita que nossas crianças cresçam acreditando que precisam negar a sua identidade para serem aceitas. Além disso, ela cria uma ponte entre o saber tradicional e o saber acadêmico, mostrando que o aprendizado não está só nos livros, mas, também, na oralidade, no corpo, no trabalho coletivo, no cuidado com a terra, nas histórias contadas pelos mais velhos. Isso amplia a autoestima das nossas crianças e jovens, porque eles veem que aquilo que suas famílias e comunidades ensinam também tem valor. Portanto, a educação quilombola é um instrumento político e pedagógico para formar sujeitos críticos, conscientes de suas raízes e capazes de enfrentar o racismo com orgulho de sua história. É um caminho para garantir que nossas crianças não apenas ocupem a escola, mas que a escola também seja transformada por elas.

  • O que motivou a escolha do Quilombo Alto Alegre (CE) como estudo de caso nesta pesquisa?

Primeiro, por ser meu território de origem, por eu conhecer as escolas, os centros de educação infantil e por ter contribuído diretamente para a consolidação desse projeto político e pedagógico. Segundo, pela aproximação que traria para a minha pesquisa que está sendo elaborada para o doutorado.

  • Que elementos da experiência de Alto Alegre você considera mais inspiradores para redes públicas de ensino que desejam implementar uma educação antirracista?

 

São vários, dentre eles o reconhecimento histórico que a rede de ensino dá à contribuição da comunidade quilombola na educação, o reconhecimento dos mais velhos. A luta do movimento e a parceria que existe.

  • Como a escola ou os espaços educacionais podem se preparar melhor para a vivência e fortalecimento da educação étnico-racial?

Trabalhando a formação de professores e de todos os profissionais que atuam na escola e para a escola. E aproximando as comunidades negras e quilombolas à rede de ensino.

  • Como a existência das leis 10.639 e 11.645 impactam a experiência em sala de aula?

As leis 10.639/2003 e 11.645/2008 são conquistas históricas do movimento negro e indígena. Para mim, elas representam uma oportunidade de transformar a escola num espaço realmente plural, onde a nossa história não é mais contada apenas pela ótica colonial, mas, sim, pelo olhar dos povos que construíram esse país. Na sala de aula, a presença dessas leis abre espaço para que as crianças negras, quilombolas e indígenas sejam reconhecidas como sujeitos de história. Quando um estudante vê nos conteúdos a contribuição dos africanos, dos quilombos, das culturas indígenas, ele entende que a sua identidade tem valor, que o seu povo deixou marcas fundamentais na ciência, na arte, na política e na vida social. Isso reforça autoestima e pertencimento.

Mas, eu também digo sempre: a lei sozinha não muda a realidade. Ela é um marco, mas precisa ser efetivada. É necessário formação continuada dos professores, produção de material didático contextualizado e vontade política para que o currículo realmente incorpore essas histórias. Muitas vezes, ainda vejo a lei ser tratada como algo a ser lembrado apenas no mês de novembro ou em datas comemorativas. Isso não basta.

Quando a lei é colocada em prática de maneira séria, o impacto é enorme: os estudantes aprendem a enxergar o Brasil a partir de sua diversidade, e não apenas de uma narrativa única. E isso não beneficia apenas os alunos negros e indígenas, mas a sociedade inteira, porque combate estereótipos, enfrenta o racismo e nos ensina a conviver com respeito às diferenças.

Em resumo: essas leis são uma ferramenta de justiça histórica. Elas nos lembram que a sala de aula é também um território de luta, e que a educação tem o poder de resgatar memórias, fortalecer identidades e abrir caminhos para um futuro mais igualitário. E pra isso temos, agora, outra luta que é a implementação das ações da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ).

  • Qual papel o Projeto SETA desempenha no apoio e na visibilidade de práticas como as desenvolvidas pela comunidade quilombola de Alto Alegre? (Ou qual a importância do apoio do Projeto SETA na visibilidade….)

 

O Projeto SETA é um parceiro capaz de nos ajudar a dar forma e visibilidade ao que já existe dentro do território, no chão da escola, na Secretaria de Educação, no que diz respeito à educação étnico-racial e quilombola. Nós, em Alto Alegre, sempre tivemos nossas práticas culturais, nossa forma própria de educar e de resistir. Mas, muitas vezes, essas ações ficam restritas ao território, invisibilizadas pelo poder público ou pela sociedade em geral. O SETA vem justamente para potencializar o que é nosso, reconhecendo que a comunidade quilombola não precisa que alguém fale por ela, mas, sim,  de espaços para que a sua voz seja ouvida.

Com o apoio do projeto, conseguimos registrar, divulgar e fortalecer experiências que nascem do território: rodas de conversa, produção literária, educação quilombola, memória oral dos mais velhos. Isso amplia a nossa rede, conecta o quilombo a outras escolas, universidades, instituições e movimentos sociais. É uma forma de dizer ao mundo: “nós existimos, produzimos conhecimento e temos muito a ensinar”.

O mais importante é que o SETA não chega impondo modelos prontos. Eles têm respeitado a autonomia da comunidade e reconhecem o valor da nossa ancestralidade como fonte de saber. Assim, têm contribuído para que Alto Alegre não seja visto apenas como um ponto no mapa, mas como um território vivo, que educa, cria, sonha e resiste.

  • Quais aspectos da prática de educação quilombola em Alto Alegre poderiam influenciar ou transformar debates sobre educação antirracista em nosso contexto nacional?

Quando vejo essas iniciativas em Horizonte – a escola quilombola, a agenda pedagógica, o bordado-alternativo com tecnologia, as visitas que aproximam vidas, o núcleo racial no território e o selo sem racismo, eu percebo que estamos caminhando juntos no sentido da educação antirracista. Porque ela não se sustenta em discursos vazios: ela nasce na comunidade, nas tradições vivas, no reconhecimento institucional e no empoderamento coletivo. E é exatamente isso que pode inspirar os debates nacionais: uma educação que seja ancestral, tecnológica, participativa e transformadora.

Os aspectos da prática de educação quilombola em Alto Alegre que podem inspirar e transformar os debates sobre educação antirracista em nível nacional têm origem na ancestralidade, na pedagogia comunitária e no olhar integrador que temos construído, com as parcerias corretas e os apoios institucionais.

 

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O racismo estrutural no Brasil tem dificultado, de forma sistêmica, o acesso ao direito a uma educação pública igualitária e de qualidade pelos estudantes negros, quilombolas e indígenas. A qualidade da educação que as crianças recebem no Brasil é profundamente segmentada por status racial e socioeconômico. E, hoje, identifica-se que as lacunas entre crianças brancas e crianças negras, quilombolas e indígenas, em todos os indicadores da educação básica, são persistentes e mais graves para jovens de 11 a 17 anos. Crianças e jovens negros, quilombolas e indígenas são os mais propensos a abandonar a escola, têm maiores taxas de exclusão e menor nível educacional. Portanto, a eles são destinados os empregos de menor prestígio e salários mais baixos quando adultos. Enquanto isso, os alunos brancos internalizam as desigualdades raciais a que são expostos nas escolas e as replicam quando adultos. Quando se observa os indicadores de aprendizagem, conclui-se também que não há apenas mais barreiras de acesso à escola para crianças negras, quilombolas e indígenas, mas, que uma vez na escola, essas crianças são menos propensas a acessar à educação de qualidade.

O Projeto SETA busca realizar ações transformadoras com base em evidências resultantes de estudos que ajudam a compreender a complexidade das relações raciais no país e as problemáticas delas decorrentes que precisam ser enfrentadas. Neste sentido, prevê uma série de estudos com recortes nacional e regionais em seus territórios de intervenção, especialmente no Amazonas, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O objetivo é mapear a percepção da sociedade em geral, de profissionais da educação e estudantes sobre o racismo, as desigualdades raciais em geral e na educação, a efetividade das políticas de combate ao racismo, as lacunas de ferramentas e metodologias para fomento à equidade racial e as estratégicas bem-sucedidas e boas práticas nacionais e internacionais que podem inspirar ações de valorização da diversidade e das diferenças e de mitigação das desigualdades, especialmente na área de educação.

1) Pesquisa bianual de mapeamento de público sobre percepções do racismo pela sociedade brasileira.
2) Grupos focais bianuais sobre percepções do racismo pelas comunidades escolares.
3) Monitoramento e avaliação dos indicadores educacionais com análise dos indicadores da educação com foco em raça, gênero e território.
4) Estudos liderados pelas organizações que compõem o Projeto SETA sobre “educação escolar indígena”, “educação escolar quilombola”, “trajetória educacional de meninas negras”, “juventude negra, educação e violência”, “impacto da reforma do ensino médio no aprofundamento das desigualdades educacionais” e “construção participativa de indicadores e diagnóstico sobre qualidade na educação e relações raciais”.
Todas essas produções são/serão disponibilizadas publicamente para auxiliar a sociedade na construção de narrativas qualificadas, com base no retrato da realidade, em defesa da equidade racial na educação, além de orientar ações do projeto.

O PROJETO SETA – SISTEMA DE EDUCAÇÃO PARA UMA TRANSFORMAÇÃO ANTIRRACISTA É UM PROJETO APOIADO PELA FUNDAÇÃO W. K. KELLOGG, DESDE 2021, QUE REÚNE ORGANIZAÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS EM ATUAÇÃO CONJUNTA POR UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA ANTIRRACISTA E DE QUALIDADE.